Decisão de cancelar viagem ajuda imagem de Dilma, dizem analistas

Ainda amargando problemas de popularidade, presidente, candidata à reeleição, deve ter dividendos políticos internos com cancelamento

Isadora Peron e Daiene Cardoso, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2013 | 22h45

A decisão tomada pela presidente Dilma Rousseff de cancelar a viagem aos Estados Unidos pode trazer benefícios à imagem da petista, que viu a sua popularidade despencar depois da onda de protestos de junho. Especialistas ouvidos pelo Estado consideram que a postura adotada pela presidente tende a ser bem-vista pela opinião pública. Enquanto isso, no Congresso, a oposição criticou a presidente de ter tomado uma decisão de "marketing", não de política externa.

O professor Sergio Praça, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp), avalia que a tendência é que a decisão de Dilma tenha uma boa repercussão na sociedade. "Os brasileiros vão achar uma postura altiva, de soberania", afirmou ele, para quem a presidente deve colher mais frutos positivos do que negativos do episódio.

Na opinião de José Paulo Guedes Pinto, professor de Relações Internacionais Universidade Federal do ABC (UFABC), o cancelamento da visita de Estado aos EUA mostra que a atitude do governo americano de espionar autoridades e empresas brasileiras é "inaceitável". "Os Estados Unidos têm errado muito na sua política externa. Qualquer compreensão nesse sentido seria um erro da parte do Brasil", disse.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de Ciência Política da FGV, argumenta, no entanto, que não há dúvidas de que Dilma tomou a decisão para agradar a opinião pública. "Ela jogou para a plateia e deixou de lado as questões de Estado. Enfrentar o ‘gigante’, o ‘Império’, tem lá o seu charme."

O professor Carlos Pereira, também da FGV, argumenta no mesmo sentido: "É possível reconhecer que Dilma tinha motivos para dizer não a Barack Obama. É possível até compreender esses motivos, porém eles têm uma conotação caseira. Nos aproximamos de um ano eleitoral, em que Dilma é candidata à reeleição, e a espionagem da agência dos Estados Unidos à presidente e à Petrobrás deixou a opinião pública chocada."

Parlamentares. No Congresso, enquanto membros da base aliada elogiavam o cancelamento do encontro de Dilma com o presidente americano Barack Obama, parlamentares de oposição classificaram a decisão como "marqueteira" e criticaram o "comportamento ideológico" do Palácio do Planalto.

"Importante observar que a reunião decisiva para a presidente não ocorreu com o ministro das Relações Exteriores, mas com a equipe de assessores de marketing", criticou o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG).

"Seria mais adequado que a presidente Dilma aproveitasse a viagem para enfrentar essa questão (da espionagem) e defender os interesses da economia nacional e das empresas brasileiras. Mas ela preferiu o marketing, mais uma vez", argumentou o tucano, que é pré-candidato à sucessão presidencial.

Já o líder do DEM na Casa, Ronaldo Caiado (GO), disse que faltou a Dilma um "comportamento de estadista" e que sua reação manifestou uma posição "estritamente ideológica". "O Brasil deve exigir reparação e penalização de quem cometeu espionagem, mas não cabe à presidente adotar um comportamento ideológico", condenou o líder em seu perfil no Twitter. Caiado lembra que o governo brasileiro agiu de maneira distinta com os vizinhos alinhados politicamente. "O País já conviveu com situações como a da Bolívia, quando Evo Morales saqueou refinarias brasileiras e o governo não tomou qualquer atitude", afirmou.

‘Sem medo’. Para os líderes da base governista, ao reagir às denúncias de espionagem, Dilma deixou claro sua contrariedade com a falta de explicação do governo Obama. Na avaliação de Arlindo Chinaglia (PT-SP), líder do governo na Câmara, até agora os Estados Unidos se limitaram a fazer "declarações de amizade", sem se ater a explicações convincentes.

O líder do PT na Casa, José Guimarães (CE), defendeu que o governo brasileiro não deve se inibir a "qualquer grito" norte-americano. "Ninguém deve temer os Estados Unidos", disse. / COLABOROU JOÃO DOMINGOS

Tudo o que sabemos sobre:
espionagemDilma

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.