Ascom/TRF1
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Indicação de Kassio Marques ao STF uniu alas do governo contra Bolsonaro

Principal incômodo na base, que fala em 'decepção', é que nome do desembargador agrada ao Congresso e a membros do Supremo, com quem há pouco tempo o próprio presidente e a militância trocavam farpas

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 09h32

BRASÍLIA - Ao confirmar a indicação do desembargador Kassio Nunes Marques para a vaga do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira, 1º, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu o feito de criar um consenso entre militares, ideológicos, evangélicos e auxiliares considerados técnicos. Em rara concordância nos bastidores, relataram desapontamento com o nome escolhido e surpresa com a rapidez da confirmação. O decano Celso de Mello se aposentará no dia 13 de outubro.

Após o anúncio na transmissão ao vivo nas redes sociais, a militância digital tratou de resumir o sentimento colocando a palavra “decepção” entre os assuntos mais comentados no Twitter. O principal incômodo na base é que Kassio Marques agrada ao Congresso e a membros do STF, com quem há pouco tempo o governo e a militância trocavam farpas.

A indicação de Marques foi selada em um encontro na casa do ministro Gilmar Mendes com a presença de Dias Toffoli, que presidiu a Corte até o mês passado. O arranjo foi feito pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que trabalha por sua reeleição no Senado e se colocou como o principal articulador para aprovar o nome escolhido por Bolsonaro. Para ser nomeado, o desembargador precisará dos votos de 41 dos 81 senadores.

A avaliação no Planalto, logo após a confirmação, é que a reação nas redes sociais já é pior do que as críticas pela indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República, no ano passado. Supera até mesmo a ocasião em que o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, deixou o governo.

Desde que o favoritismo de Marques, desembargador do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região, foi divulgado, auxiliares de confiança do presidente tentaram oferecer alternativas, segundo apurou o Estadão. Até as últimas horas, alguns integrantes do primeiro escalão esperavam uma reviravolta diante da "fritura".

Apoiadores fizeram chegar ao WhatsApp presidencial informações que, na visão deles, depunham contra o desembargador. Foi em vão. Decidido por Marques, o presidente, então, foi aconselhado a formalizar a indicação o quanto antes e evitar um desgaste ainda maior de seu protegido, que já vinha sendo alvo da ofensiva nas redes.

Indicado com a bênção do Centrão, o empenho de Alcolumbre e com a chancela de Gilmar Mendes e Dias Toffoli, Marques se tornou imbatível, segundo interlocutores do governo, por ter o apoio do senador Flávio Bolsonaro (Repúblicanos-RJ). O primogênito do presidente é investigado no caso envolvendo seu ex-assessor Fabrício Queiroz e as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e que pode chegar à Corte. A participação direta de Flávio na escolha de Marques foi confirmada ao Estadão por pessoas próximas ao senador e interlocutores do Planalto no Congresso.

No governo, até os auxiliares mais próximos do presidente não souberam explicar a relação de confiança com o desembargador. Ao Estadão, um ministro justificou que Bolsonaro conhece o magistrado, reconhecido pela habilidade política, desde os tempos em que era deputado. Segundo esse auxiliar, quando o presidente mencionou que queria um ministro do Supremo que “bebe cerveja” era a Nunes que se referia. Na live nesta quinta-feira, o presidente disse: “Kassio Nunes já tomou muita tubaína comigo”.

Nos últimos meses, o desembargador percorria gabinetes em Brasília em busca de apoio a uma vaga para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), que se abrirá com a aposentadoria do ministro Napoleão Nunes Maia em dezembro. Foi assim que há dois meses teria estreitado relações com Flávio Bolsonaro e abriu caminho para ganhar a indicação para o Supremo.

Durante a transmissão, Bolsonaro rebateu ponto a ponto críticas que foram feitas a Marques, como o fato de em uma decisão ter liberado a compra de lagostas e vinhos premiados no Supremo e pelo voto que impediu a deportação do italiano Cesare Battisti, em 2015. “O desembargador Kassio apanha pela questão do cardápio. Sobre o Battisti mandei averiguar qual foi a participação dele nesse caso. É impressionante como esculhambam com as pessoas sem comprovação de nada. Quem decidiu foi o STF, não foi ninguém do TRF1”, afirmou.

Bolsonaro também defendeu Marques das acusações de ser “petista” e “comunista”. Ele foi indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff ao TRF-1 com o apoio do governador do Piauí, Wellington Dias (PT). “Com tantos anos de PT, todo mundo teve alguma relação com eles. Não é por causa disso que o cara é comunista, socialista”, rebateu Bolsonaro.

Embora também alvo de críticas, o presidente só não justificou a costura com Gilmar, Toffoli, Alcolumbre e o Centrão, com atuação do senador Ciro Nogueira (PP-PI), tampouco a participação do filho Flávio Bolsonaro na escolha.

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