Debilitado, Garotinho reclama de abandono do PMDB

O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho começou a sentir nesta quarta-feira os primeiros sinais de debilitação decorrentes da greve de fome que iniciou no domingo. Ele passou mais um dia na sede regional do PMDB, no Centro do Rio, onde se tornou alvo de manifestações contra e a favor e virou até atração turística. No final do dia, leu mais uma vez uma carta em que reitera a reivindicação de espaço na mídia para se defender de denúncias que envolvem doações para sua pré-campanha e demonstrou sentir o abandono do principais líderes do PMDB. "Sei que agora, dentro do meu partido, conspiram contra minha candidatura a mando de Lula e dos banqueiros", afirmou.Aparentando abatimento, Garotinho leu a nota e recusou-se a responder perguntas dos jornalistas, apesar de sua queixa principal ser falta de espaço para explicar a ligação de ONGs que têm contratos milionários com o governo do Estado do Rio e empresas doadoras de sua pré-campanha. Ele disse que não tinha informações sobre a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a validade da consulta prévia que venceu dentro do partido em 2004. Só reagiu quando foi provocado a respeito de uma possível movimentação do PT, diante do enfraquecimento de sua pré-candidatura, para oferecer ao PMDB a vaga de vice na chapa do presidente Lula. "Só se tiver algum ladrão disposto a acompanhar Lula no PMDB", afirmou, ensaiando um sorriso. No comunicado, ele afirmou que seus advogados podem ir à Justiça pedir direito de resposta a órgãos de imprensa.Em mais um dia de jejum voluntário, o ex-governador não recebeu visitas de apoio de líderes importantes do PMDB. Além do secretariado da governadora Rosinha Matheus, prefeitos aliados do interior do Rio e colaboradores como o candidato derrotado a prefeito em Campos, Geraldo Pudim, o prefeito de Ipatinga (MG), Sebastião Quintão, foi um dos poucos peemedebistas de fora do Rio que veio manifestar seu apoio. "Os grotões de Minas querem democracia", bradou. O casal de turistas gaúchos João Paulo e Vera Lúcia Cavalcanti foram visitar o ex-governador, mas o encontraram dormindo. Simpatizantes do PMDB, eles tiraram fotos próximo à porta de vidro que separa Garotinho da imprensa. "Estamos passeando no Rio e aproveitamos para vê-lo", disse o eletricitário.Garotinho passou a terceira noite da greve de fome no mesmo sofá próximo à porta de vidro que o separa dos jornalistas e teve a companhia da mulher. Rosinha deixou o local às 5h, retornou às 11h e embarcou para Brasília por volta das 15h para participar da reunião da executiva do partido. Segundo assessores, ela levou queixas do marido à cúpula do partido.DesidrataçãoGarotinho passou a maior parte do dia deitado e sonolento. Em alguns momentos, levava a mão na cabeça ao se levantar. De acordo com o médico particular do ex-governador, Abdu Neme, Garotinho permanece lúcido e orientado, mas começa a apresentar taquicardia e pressão baixa. O ex-governador está levemente desidratado, apesar de ingerir três litros de água por dia. Segundo o médico, Garotinho recusou-se a tomar soro para suprir a carência de sais minerais. Neme afirmou que um hospital particular da zona sul do Rio tem quarto e ambulância de prontidão caso ele e a família decidam internar o ex-governador se o seu estado de saúde se agravar. Para o médico, se Garotinho não desistir da greve de fome, poderá atingir um estado crítico na sexta-feira."Percebo que ele está disposto a tudo. Achei Rosinha um pouco apreensiva com isso. Ela e os filhos estão muito preocupados", disse o médico, afastando a possibilidade levantada por colaboradores de que Garotinho tenha entrado num quadro depressivo. Na sexta-feira, capitaneados pelo presidente da Assembléia do Rio, Jorge Picciani, deputados estaduais da bancada do PMDB devem ir à sede regional do partido para fazer um apelo ao ex-governador pelo fim da greve.Diferentemente do dia anterior, os manifestantes trocaram os pontapés pelo bom humor. No final da manhã, servidores estaduais insatisfeitos com a política salarial do governo do Estado depositaram quatro coroas de flores na porta do prédio onde fica a sede do PMDB com a inscrição: "Descanse em paz, Garotinho."Agentes penitenciários montaram uma cela no canteiro central da Avenida Almirante Barroso onde era possível ver um homem vestido de prisioneiro usando uma máscara com o rosto de Garotinho.À tarde, a avenida foi tomada pelos correligionários do ex-governador. Simpatizantes do PMDB vibraram com o discurso de líderes do partido no Rio ligados a Garotinho, que usaram um carro de som. Eles também gritaram palavras de ordem. A Polícia Militar reforçou o policiamento com 150 homens espalhados pelo Centro, mas a interdição da avenida provocou reflexos no trânsito da região.O prefeito Cesar Maia reclamou e ironizou, sugerindo que Garotinho escolhesse outro lugar para fazer seu protesto, como o Riocentro, o longínquo centro de exposições do município, que fica em Jacarepaguá, na zona oeste.

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