Debate político de 1 ano antes tende a pautar campanha

A um ano da eleição presidencial, os temas agora vocalizados pelos prováveis candidatos ao Planalto deverão pautar as discussões da campanha em 2014 caso seja mantida a tendência dos últimos 20 anos. Além da economia, tema recorrente no período pré-eleitoral - este ano focado no modelo de tripé macroeconômico e inflação -, despontam como assuntos da futura campanha a qualidade dos serviços públicos o desenvolvimento sustentável.

ISADORA PERON, LILIAN VENTURINI E VALMAR HUPSEL FILHO, Agência Estado

03 de novembro de 2013 | 08h37

Esses dois últimos assuntos entraram em pauta, respectivamente, com as manifestações de junho e o surgimento de uma possível chapa formada pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva.

Levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo mostra que, entre 1993 e 2010, os assuntos que eram destaque um ano antes de cada eleição presidencial continuaram no centro da disputa. "A construção das candidaturas se dá nesse período pré-eleitoral. Esses elementos que antecedem a campanha são fundamentais. Não porque marquem definitivamente, mas dá para sentir o clima do que virá", diz a cientista política Vera Chaia, coordenadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC-SP.

Nas últimas semanas, por exemplo, a presidente Dilma Rousseff, que deve disputar a reeleição, voltou a citar em seus discursos os pactos apresentados em respostas à onda de protestos de junho e enfatizou o programa Mais Médicos. Dias depois de ouvir críticas de Marina Silva sobre as políticas econômica e ambiental do governo, apresentou um programa de agroecologia e rebateu os ataques de que descuidou do tripé econômico, formado por câmbio flutuante, meta de inflação e responsabilidade fiscal.

O cientista político Manuel Sanches coloca na lista ainda o debate energético devido ao leilão do campo de Libra, realizado em 21 de outubro, e da forte relação com a bandeira ambiental de Marina - levantada agora também por Campos, seu aliado e provável candidato à Presidência. Para Sanches, tendem a permanecer em evidência os assuntos ligados ao contexto macro do País, o que não significa que temas mais imediatos não mudem o cenário. "Às vezes a eleição pode ser decidida no dia anterior", diz Sanches, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

Economia

Até 2006, lembram os especialistas, o contexto econômico dava as principais cartas do debate eleitoral. Assim foi em 1993, época de inflação galopante, seguida por uma campanha fortemente influenciada pelo Plano Real, lançado três meses antes das eleições. Em 1998 e 2002, a preocupação deixou de ser a inflação, mas os debates ainda estavam voltados para temas ligados à estabilidade e à criação de empregos.

Para o sociólogo e cientista político Antônio Lavareda, que trabalhou para campanhas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998, e de José Serra, em 2002, a economia costuma ser o fiel da balança nas eleições presidenciais. Ele cita como exemplo o ano de 2001, quando Fernando Henrique enfrentava dificuldades na condução da economia. "No ano seguinte, venceu o candidato que melhor soube capitalizar para si o sentimento de mudança pela qual ansiava uma população insatisfeita", diz o sociólogo, referindo-se a Luiz Inácio Lula da Silva.

O cientista político André Singer, que compôs a equipe da campanha presidencial petista de 2002 e no ano seguinte foi o porta-voz do governo Lula, prefere não arriscar quais seriam os assuntos que serão predominantes nos debates em 2014, mas avalia que a presidente Dilma poderá ser questionada sobre o crescimento da economia, já que o resultado de seu quadriênio tende a ser menor que o de seu antecessor. "Mas o elemento que tende a ser de grande influência na opinião dos eleitores são aqueles ligados diretamente ao bolso, como inflação e emprego", afirma.

Para a cientista política Helcimara de Souza Telles, o ano de 2014 pode ser palco de uma campanha mais complexa, que marque mais fortemente uma mudança no perfil do eleitorado, delineada já em 2010. "O fato de 40 milhões de pessoas serem inseridas num novo extrato social pode significar um padrão de atitude política que nós desconhecemos. Não sabemos como elas vão votar", aponta. "Como 2014 não acena para um cenário de profunda crise econômica, é provável que a campanha seja mais ambígua, de uma continuidade com mudanças. Acho que os candidatos vão dizer que farão melhor e apontar novos valores", avalia.

Se a economia não desandar, abrirá espaço para que temas menos materiais surjam, diz o professor de Ciência Política da USP José Álvaro Moisés. "Enquanto o problema é a sobrevivência, alguns temas ficam soterrados. Mas depois que isso fica sob controle, as pessoas começam a trazer à tona temas ligados à qualidade de vida e à liberdade", afirma. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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