Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Debate: O governo deve apoiar ou ter representantes em atos de rua?

Cientistas políticos opinam sobre presença de integrantes do governo em manifestações

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 17h23

Um dia após atos favoráveis ao ministro Sérgio Moro em 26 Estados e no Distrito Federal que tiveram a participação de integrantes do governo como o ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional, o Estado ouviu dois especialistas com opiniões distintas sobre a situação. Confira abaixo a avaliação deles. 

O governo deve apoiar ou ter representantes em atos de rua?

SIM 

Kléber Carrilho, pós-doutor em sociologia e professor da Universidade Metodista de São Paulo

O governo Bolsonaro se mantém com a estratégia de comunicação utilizada durante o processo eleitoral: a simplificação das mensagens e o ataque aos inimigos. Para isso, precisa manter na agenda das redes sociais o caminho narrativo das bandeiras já utilizadas. As lutas contra os comunistas e a corrupção, a favor da segurança e da família tradicional, continuam presentes. Isso faz com que as manifestações, como as do último domingo, tornem-se ainda mais importantes para colocar, no ambiente virtual, uma ideia de que o povo está com os valores do presidente.

As mensagens simples, estimuladas pelos organizadores dos movimentos, fazem com que o governo mantenha o apoio de uma parte da população e a defesa radical dos influenciadores digitais. Alguns atores, então, são essenciais para que o governo esteja presente nas ruas e nos compartilhamentos. Sai momentaneamente o presidente, mas está lá o inflável do ministro da Justiça. Saem os filhos, mas o general Heleno dá conta de dizer o que deve ser a tônica dos posts da semana seguinte.

Os personagens boquirrotos têm o papel de fazer a ligação entre o que aparece nas redes e o que se busca nas ruas para alimentar as redes. Para um governo que se mantém com a comunicação organizadamente atabalhoada, para não cair no esquecimento público e no mar de escândalos, ministros como Weintraub, Damares e Heleno são fundamentais para que a guerra continue. E eles precisam estar em todas as frentes, das redes às manifestações nas ruas.

NÃO 

José Álvaro Moisés - professor e cientista político da Universidade de São Paulo

O governo Bolsonaro enfrenta reveses importantes. No Congresso, algumas de suas medidas – resultantes de decretos presidenciais – são contestadas por parlamentares e, na opinião pública, além das revelações do The Intercept Brasil que deixaram o ministro Sérgio Moro em uma situação delicada, as recentes pesquisas de opinião mostram que parte importante do apoio do presidente está se esvaindo. Diante disso, seus apoiadores voltaram a apelar para mais mobilização da população nas ruas.

Domingo as manifestações ocorreram em 26 Estados, além do DF e, ao lado da defesa de Moro, da Lava Jato e da reforma da Previdência, os manifestantes voltaram a atacar o Congresso Nacional e o STF. Mesmo o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, se permitiu, para além da defesa de Moro e de Bolsonaro na reunião do G-20, atacar os brasileiros que chamou de “esquerdopatas”. 

Considerados “legítimos” por Bolsonaro, tais atos revelam uma estratégia de mobilização que só se explica pela fragilidade política do governo, e revelam uma clara confusão entre governo e Estado. Este, diferente do governo, representa o conjunto dos cidadãos, inclusive os que não apoiam aquele, o que torna injustificável que um chefe de Estado ou um ministro seu, ao invés de unir o País para enfrentar seus desafios, ajam para dividi-lo ainda mais. E mais grave é o presidente e um ministro da área de Segurança apoiarem manifestações que atacam instituições democráticas como o Congresso e o STF. Mal sinal para a democracia.

Podcast: Qual o impacto das mensagens vazadas na imagem do superministro Moro?

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