Debate entre Davos e Porto Alegre teve insulto e constrangimento

Não houve muito diálogo na teleconferência entre os fóruns de Davos e Porto Alegre neste domingo à tarde. Quatro representantes na Suíça e doze no Brasil tiveram uma conversa de uma hora e meia recheada de insultos e discordâncias. Os representantes do Fórum Social, na maioria representantes de ONGs internacionais, esboçaram algumas propostas, mas a complicada interlocução impediu que fossem de fato consideradas.Entre essas propostas, estavam a adoção da taxa Tobin, que incidiria sobre o movimento internacional de capital, a anulação da dívida externa do Terceiro Mundo, a redução dos subsídios agrícolas na Europa e o fim da imposição de políticas de ajuste econômico como privatizações e abertura a multinacionais. O especulador George Soros, bastante atacado pelos interlocutores de Porto Alegre, disse concordar com a taxa Tobin e com o "alívio" da dívida externa, mas irritou os integrantes do Fórum Social ao dizer que a pobreza nos países subdesenvolvidos é "na maior parte gerada por problemas em casa".O presidente da Cives (Associação dos Empresários pela Cidadania), Oded Grajew, organizador do Fórum Social, pediu ao investidor Georges Soros que respondesse quantos dólares giram hoje no mercado internacional, quantos dólares os países subdesenvolvidos pagam de juros da dívida externa e quantas crianças morrem de fome a cada dia nesses países. Soros disse reconhecer que a diferença entre ricos e pobres cresceu muito nas duas últimas décadas e pediu que o próprio Grajew respondesse. Grajew disse existir uma associação direta entre os trilhões de dólares que circulam no mercado financeiro mundial e a pobreza do Terceiro Mundo.Questionado por Rafael Alegria, da Via Campesina, movimento internacional que defende pequenos produtores rurais, sobre o aumento de desemprego no campo, o investidor afirmou que as multinacionais têm maior capacidade de produção do que os trabalhadores rurais. O presidente da Attac e diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, Bernard Cassen, criticou o discurso "de outro planeta"; feito por Davos e sugeriu também a abolição dos paraísos fiscais, "que Soros deve conhecer muito bem".A presidente das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, xingou os componentes da mesa de Davos de "hipócritas" e "monstros". "Quantas crianças vocês matam por dia?" Frases como essa eram aplaudidas a todo instante pelo público que assistia à conferência em telões no Fórum Social. Soros, constrangido, disse lamentar a "raiva" demonstrada pelas pessoas da outra mesa. "Isso pode afetar os seus próprios interesses", comentou. Os representantes de Porto Alegre acham que essa demonstração de raiva foi o mais importante. "Porto Alegre desmascarou Davos", disse Grajew ao Estado, depois da conferência.A mesa de Davos foi criticada por diversas práticas mundiais, como o tráfico de mulheres, a concentração agrária e a escassez de água. Cobrado sobre a distribuição de renda entre os países, Bjorj Edlud, representante de multinacional sueca, disse que antes de distribuir riqueza é preciso produzi-la. "Não existe uma caixa preta com dinheiro para sair distribuindo", disse Edlud. Soros também disse que a pobreza é gerada por governos corruptos em países que possuem muitos recursos naturais. Irritada, Aminata Traore, ministra da Cultura de Mali, afirmou que as guerras civis na África também são produto da política econômica do Primeiro Mundo, por meio da dívida externa.Os representantes do Fórum Social criticaram muito os organismos internacionais como a ONU, a OMC e o Banco Mundial. Mark Malloch e John Ruggie, ambos representando a ONU em Davos, disseram que a organização trabalha por algumas das mesmas causas da outra mesa e lembraram que a proposta da taxa Tobin e os dados sobre desigualdade na economia mundial saíram de dentro da própria ONU. Os membros da mesa suíça disseram que não estavam representando Davos, apenas oferecendo uma possibilidade de debate, em sua opinião mal aproveitada pela mesa de Porto Alegre.A teleconferência, transmitida em tempo real para seis países e, no Brasil, exibida pela TV Educativa local e pelo canal Globonews, terminou com convites irônicos para que os participantes de Davos estejam no próximo Fórum Social. Não houve acordo sobre o encaminhamento das propostas.

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