De unguento para bursite a meias de lã

Envelopes e pacotes enchem caixa de correio do Planalto

, O Estadao de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 00h00

Pedidos de emprego, cobrança de precatórios, caixas de doces, vasos de plantas, unguento para aliviar os sintomas da bursite e até um par de meias de lã para encarar um dia frio em Brasília. Esses são alguns exemplos do conteúdo de milhares de correspondências que há seis anos chegam ao Palácio do Planalto, endereçadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em média, 300 cartas, pacotes e e-mails chegam a cada dia útil nas caixas de correio do governo. O número impressiona à primeira vista, mas o fato é que o presidente já não desperta mais o mesmo interesse dos eleitores em escrever. Em janeiro de 2003, primeiro mês de Lula na cadeira, foram 9 mil mensagens, somente por carta. Hoje, são recebidas, em média, 3 mil por mês. Parte dessa queda é compensada pelo fato de o governo ter disponibilizado, desde 2004, o endereço de e-mail "Fale com o Presidente". As mensagens eletrônicas já totalizam 3 mil por dia. Os números, explica o diretor de Documentação Histórica do Gabinete Pessoal da Presidência, Cláudio Soares Rocha, consideram a correspondência destinada a Lula e à primeira-dama Marisa Letícia. Não são levadas em conta o que ele chama de "campanhas", ou seja, quando uma organização recomenda a seus membros que escrevam cartas ao chefe de Estado. O dado também já desconsidera o que o Planalto descreve como "remetentes excêntricos". Um exemplo é o de um eleitor que escreve todos os dias uma carta a Lula, desde a posse. Além de janeiro de 2003, a equipe de Rocha assistiu a dois outros picos no recebimento de cartas. Um deles, como era de se esperar, ocorreu com a eclosão do escândalo do mensalão. Em agosto de 2005, no auge da crise, foram 4.500 cartas e 4.132 e-mails. Rocha admite que parte das mensagens não poupava o governo de críticas. Mas ele garante que a maioria era de palavras de apoio. No mês, diz, foram 37 ataques nominais a Lula por carta e 413 por e-mail. O outro pico ocorreu na eleição de 2006, que reconduziu Lula ao cargo por mais quatro anos. Nesse caso, conta o historiador, foram 8 mil cartas e 5 mil e-mails. Para processar esse material, Rocha comanda uma equipe de 32 pessoas. Elas fazem a triagem das correspondências, conferem sua adequação às normas de segurança, protocolam cada documento e encaminham uma resposta a cada um dos remetentes. Enviar uma carta ao presidente é mais simples do que parece. Graças a um acordo com os Correios, todas as cartas que trazem como destinatário Presidência da República, Palácio do Planalto, governo federal ou simplesmente Lula chegam ao destino. "Basta entender o recado e a carta chega", diz Rocha.Lula já recebeu cartas até de Bono Vox, vocalista da banda irlandesa U2. Bibi Ferreira e Marília Pera também já escreveram. Recentemente, por exemplo, uma amiga de Marisa Letícia dos tempos de colégio escreveu pedindo instruções para retomar o contato.Mas muitas cartas trazem pedidos de ajuda, alguns de eleitores desesperados. Rocha não esconde o incômodo em ver que parte das demandas permanece sem qualquer solução. "O que mais nos constrange é ver pessoas que têm um direito adquirido com o Estado não conseguirem receber. O caso do pagamento de precatórios é grave." Responsável por gerenciar esse acervo desde os tempos do ex-presidente José Sarney, Rocha diz que nenhum presidente desde a redemocratização teve um apelo tão grande junto à população. Fernando Henrique Cardoso, conta, lotou dois depósitos com cartas e pacotes nos oito anos de governo, um no Palácio da Alvorada e outro no Planalto. Lula preencheu o mesmo espaço em menos de cinco anos. "Agora, estamos brigando por qualquer espaço disponível."

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