De uma câmera oculta aos 40 do mensalão

Denúncia nos Correios detonou escândalo que abalou o País e só começa a ser julgado agora

Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2003 | 00h00

Passaram-se 810 dias entre a filmagem de Maurício Marinho e a Operação Selo, período que ficou marcado por uma das mais tumultuadas crises políticas do País - o escândalo do mensalão. A câmera oculta que flagrou o então chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios recebendo R$ 3 mil de propina levou à abertura de uma CPI e culminou, em 30 de março de 2006, na denúncia da Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra 40 pessoas. Até agora, porém, ninguém foi condenado.Sem saber que estava sendo filmado, Marinho pediu um "adiantamento" de R$ 3 mil para que o interlocutor - enviado pelo empresário Arthur Wascheck Neto - entrasse no "rol de fornecedores". Desenvolto, o funcionário dos Correios relatou que o dinheiro iria para um esquema operado pelo PTB na estatal. O achaque, revelado pela revista Veja em 14 de maio de 2005, atingiu em cheio o presidente do partido, Roberto Jefferson, à época deputado. Sentindo-se traído pelo governo, ele reagiu com uma entrevista bombástica, em 6 de junho.Jefferson contou que o governo havia montado um esquema no Congresso e, mediante o pagamento de mesada a parlamentares, garantia a aprovação de projetos do seu interesse. Ele dizia que a filmagem havia sido feita pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a mando do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Virou um inimigo encarniçado e perseguiu Dirceu até 1º de dezembro de 2005, quando o petista foi cassado.EMPRÉSTIMOSEntre 10 de junho de 2005 e de abril de 2006, a CPI dos Correios esmiuçou os esquemas na estatal, em meio a depoimentos ruidosos. O desgaste do governo atingiu níveis crítico. O empresário mineiro Marcos Valério de Souza, acusado de operar o mensalão, revelou empréstimos milionários do PT.O relatório final da CPI foi votado em meio a protestos de petistas. Reconhecia a existência do mensalão e pedia o indiciamento de 124 pessoas, incluindo os ex-ministros José Dirceu e Luiz Gushiken. Fazia recomendações ao Ministério Público e ao Executivo.Uma semana depois, o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, apresentou a sua denúncia contra 40 acusados, em um calhamaço de 136 folhas. Citou Dirceu como "chefe do organograma delituoso" e listou como integrantes da "quadrilha" três ex-dirigentes petistas: José Genoino, Delúbio Soares e Silvio Pereira.O caso foi parar nas mãos do ministro do STF Joaquim Barbosa. Segundo a assessoria de imprensa da Corte, a denúncia começará a ser julgada no próximo dia 22, com a leitura do voto do relator. Depois, segue para o plenário, que decidirá se aceita ou não a denúncia. Na esfera política, dos 22 parlamentares acusados, só 3 foram cassados - Jefferson, Dirceu e Pedro Corrêa. Outros 4 renunciaram e 12 foram absolvidos.

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