De última hora, Chávez exige visto de jornalistas brasileiros

Atualmente, Brasil e Venezuela têm um acordo de isenção de visto; diplomatas brasileiros estavam indignados

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo,

11 de dezembro de 2007 | 18h45

Com um histórico de conflitos com a imprensa venezuelana, o presidente Hugo Chávez resolveu dificultar o trabalho de jornalistas brasileiros. A Venezuela decidiu exigir, de última hora, visto para os jornalistas brasileiros destacados para cobrir o encontro de Chávez com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quinta-feira, 13, em Caracas.   A informação sobre a nova exigência chegou apenas na manhã desta terça à embaixada da Venezuela em Brasília, que imediatamente disparou telefonemas para avisar as redações. Mas, até o final da tarde, a própria embaixada não sabia se esse procedimento se tornará regular. Atualmente, o Brasil e a Venezuela mantêm um acordo de isenção de visto.   O próprio Itamaraty chegou a avisar os meios de comunicação, na semana passada, sobre a possibilidade de o governo venezuelano exigir um "visto de cortesia" aos jornalistas credenciados para a visita do presidente Lula. Nesta terça, diplomatas brasileiros mostravam-se indignados com a oficialização da exigência. Conforme as tradições diplomáticas, qualquer nova regra unilateral acaba adotada também pelo outro lado, sob o princípio da reciprocidade.   Até o final da tarde, o Itamaraty não havia respondido ao Estado se passará a exigir visto dos jornalistas venezuelanos. Mas essa foi a opção do governo Lula em 2003, quando os Estados Unidos passaram a exigir que os cidadãos brasileiros tivessem suas digitais registradas e fossem fotografados pelos funcionários da imigração, ao desembarcarem nos aeroportos do país. Mesmo sem os equipamentos necessários, a Polícia Federal adotou em seguida o mesmo procedimento para com os cidadãos americanos, que amargaram esperas em longuíssimas filas.   A exigência inesperada de vistos não é rotineira para jornalistas. No caso da Venezuela, a medida foi anunciada apenas um dia depois de a Federação Internacional de Jornalistas ter enumerado esse país entre os que, freqüentemente, atacam a imprensa e violam os direitos humanos, ao lado do Azerbaijão, da Tunísia, do Paquistão, de Israel e da Nigéria.   Mudança de regra   Curiosamente, o governo venezuelano não fez nenhuma exigência similar aos jornalistas brasileiros que desembarcaram no país para cobrir o referendo sobre a proposta de Chávez de reforma constitucional - projeto carregado de regras de cunho autoritário, como a reeleição ilimitada do presidente da República, a capacidade de o presidente criar novos municípios e províncias com administradores indicados por ele. Há oito meses, entretanto, Caracas exigira o visto para os profissionais que cobriram a reunião da Comunidade Sul-americana de Nações, em Isla Margarita, da qual Lula participou.   Também significativo foi o caso que deu-se em outubro passado com Cuba, país com o qual Chávez mantém uma estreita comunhão ideológica. Jornalistas credenciados para a visita do presidente Lula a Havana, posteriormente adiada, tiveram seus pedidos de visto negados pela embaixada cubana em Brasília. Diplomatas cubanos advertiram, na ocasião, que só obteriam o visto os profissionais cujos nomes fossem indicados pelo Itamaraty e que se comprometessem a deixar a ilha assim que o presidente Lula embarcasse ao Brasil. Desde o anúncio da doença de Fidel Castro, presidente licenciado, o governo de Cuba tem negado vistos a jornalistas - até mesmo para os que planejam apenas umas férias no Caribe.

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