ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO
ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

De porta em porta por 'respeito à instituição'

Indicada por Temer para a PGR, subprocuradora começa visitas a senadores; 1/3 da Casa está citada na Operação Lava Jato

Thiago Faria, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2017 | 05h00

BRASÍLIA - Raquel Dodge chegou cedo nesta quarta-feira, 5, ao Senado Federal. Levava a tiracolo uma lista com os gabinetes de senadores que visitaria ao longo do dia. Indicada pelo presidente Michel Temer para chefiar a Procuradoria-Geral da República no lugar de Rodrigo Janot, a subprocuradora busca garantir a aprovação de seu nome na Casa. Ela será sabatinada na Comissão de Constituição e Justiça na quarta-feira, 12.

“Vou visitar os 81 senadores. É um périplo longo, mas um sinal de respeito à instituição”, disse ao Estado enquanto fazia o trajeto até o gabinete de Lasier Martins (PSD-RS), o quinto senador que visitou nesta quarta-feira.

Sua peregrinação havia começado às 10 horas, com um encontro com os sete integrantes da bancada do PP. Uma hora e meia depois já estava cercada de petistas no gabinete da liderança do partido. O tête-à-tête só terminaria à noite, com Raimundo Lira (PB), recém-eleito líder da bancada do PMDB. Tentou ainda encontrar Aécio Neves (PSDB-MG), alvo de nove inquéritos no Supremo Tribunal Federal, mas sem sucesso. O tucano havia deixado a Casa.

“Ela se mostrou extremamente humilde. Se apresentou dizendo: ‘Olá, sou a Raquel’. Eu respondi: ‘Reconheci pelas fotos’”, contou a senadora Ana Amélia (PP-RS). Sobre a conversa, preferiu não entrar em detalhes, mas disse que trataram de tudo em um tom “institucional”. “Ela me pareceu prezar muito pela impessoalidade ao falar das instituições”, afirmou Ana Amélia, que não poupou elogios à indicada por Temer.

Considerada opositora a Janot na instituição, Raquel ficou em segundo lugar na lista tríplice apresentada pela Associação Nacional dos Procuradores da República, atrás de Nicolao Dino, vice-procurador eleitoral que atuou na acusação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral. Será a primeira mulher a ocupar o cargo.

Refresco. No gabinete de Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Raquel ganhou um refresco: suco de goiaba. Na parte da conversa presenciada pela reportagem, falaram sobre a preservação do boto-cor-de-rosa da Amazônia. “Ela foi muito cordial, me trouxe informações importantes. Ela tem atuação na área de direitos humanos, pretende dar sequência a um tema necessário, que é Justiça de transição. E assumiu um compromisso, que ela disse que reafirmará na CCJ, de continuar a dar total apoio à Operação Lava Jato”, afirmou Randolfe, o primeiro da tarde.

Enquanto a subprocuradora percorria gabinetes, o relator da indicação, senador Roberto Rocha (PSB-MA), lia seu parecer na CCJ. No texto, favorável à indicada, exalta sua atuação em casos que resultaram na prisão de políticos, como a do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda e a do ex-deputado Hildebrando Paschoal, acusado de comandar um esquadrão da morte no Acre.

O relator foi o primeiro da lista de visitas de Raquel. O encontro ocorreu nesta terça-feira, 4, por cerca de uma hora e meia. Na ocasião, segundo Rocha, não discutiram temas como a Lava Jato, operação que tem na mira um terço dos senadores. “Assuntos que estão em investigação a gente evitou comentar”, disse. “Conversamos sobre temas como quilombolas, que não estão sob a proteção de órgão federal nenhum. O Maranhão tem muitos quilombolas e eles estão desprotegidos, diferentemente dos índios, que têm a Funai”, afirmou.

Alvo da Lava Jato, Ivo Cassol (PP-RO) disse ter exposto à subprocuradora a necessidade de o Ministério Público Federal não ser seletivo nas investigações “para evitar perseguições políticas”. Ela concordou, segundo Cassol.

Discrição. Nos encontros, Raquel tem prezado pela discrição. Acompanhada apenas por uma assessora de gabinete, tem pedido aos parlamentares para falar em reservado e evitar o registro de imagens. Assediada pela imprensa nos corredores, tem dito que só se manifestará após a votação no plenário.

Depois de se reunir com o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), outro alvo da Lava Jato, saiu pelo acesso da garagem, evitando os fotógrafos que se aglomeravam na porta do gabinete.

Por vários momentos evidenciou a falta de hábito ao tratar com políticos. Diante do “labirinto” de corredores do Congresso, perguntava aos seguranças onde se encontrava determinado gabinete. No meio da tarde, acabou dando com a cara na porta ao tentar se encontrar com Acir Gurgacz (PDT-RO). O senador estava no plenário para votar projeto sobre precatórios. De sapato de salto alto, não dava sinais de cansaço. Ainda faltavam muitos nomes para visitar.

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