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Eliane Cantanhêde
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De pires na mão

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, foi recebido em Brasília como o salvador da Pátria ou, pelo menos, o salvador da lavoura. Exageros à parte, até porque muita coisa é requentada, o fato é que os 35 acordos e a promessa de US$ 53,3 bilhões dos chineses chegam numa boa hora, tanto para o Brasil quanto para a presidente Dilma Rousseff.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 05h00

Com a economia empacada, crises para todo lado, a Petrobrás manchando a imagem do País lá fora e os consulados devendo até as contas de água e luz, o pacote oferecido por Keqiang vem bem a calhar. Mas, atenção: ele confirma também o enorme senso de oportunidade dos chineses. Eles aproveitam a liquidação, compram na baixa. Estão comprando um banco, encomendando 40 aviões da Embraer (com financiamento do BNDES), investindo em petróleo, gás, infraestrutura e assinando dois acordos de US$ 70 bilhões com a combalida Petrobrás. Até a ferrovia ligando o Brasil ao Peru voltou à pauta e aos sonhos, para escoar matérias-primas brasileiras para a China e para o resto da Ásia, pelo Pacífico.

Keqiang aproveitou para reconfirmar, pela enésima vez, a liberação de carne bovina brasileira para a China. A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, era toda sorrisos ontem no almoço de Dilma para o casal chinês, no Itamaraty, e não foi à toa que o cardápio foi carne, carne e carne. Das boas.

Também o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, parecia bastante satisfeito – e antes mesmo de devorar a primeira garfada, com mais de uma hora e meia de atraso. Entre tantos projetos nas áreas de refino e distribuição, ele falava com especial interesse em dois: pesquisa e produção de energia solar e eólica. “Os chineses estão investindo pesadamente nisso. Eles pensam no futuro”, disse.

Também estavam lá o vice Michel Temer, o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o onipresente Joaquim Levy, que agora negocia não só com deputados e senadores como também com invasores da Fazenda. E compareceram a alta cúpula militar, os presidentes do BNDES, da Embraer e da Embrapa e representantes da iniciativa privada, enquanto governadores faziam fila: do Maranhão, de Pernambuco, do DF...

Nesses tempos de pindaíba e de tesouradas no Orçamento, todos estão de olho num “negócio da China” e a República não se fez de rogada: compareceu em peso. É assim que, com tantas más notícias na política, na economia, na gestão, na polícia, Dilma conseguiu pelo menos uma lufada de ar fresco. Lufada que vem justamente de fora, apesar de sua relação desleixada com a política externa.

Silencioso, já no quinto mês de governo, o chanceler Mauro Vieira parecia feliz com a casa cheia, enquanto seus embaixadores cochichavam pelos cantos que o banquete de Li Keqiang deve ser o mais importante deste ano, perdendo apenas para um que será a muitos quilômetros de Brasília: o de Dilma e Barack Obama, junho, em Washington. Mas, dificilmente, os americanos acenarão com tantas verdinhas quanto os chineses.

Agora, a pergunta que não quer calar e que os diplomatas também repetiam nas rodinhas de conversa: afinal, a China, tão estratégica, parceira tão próxima dos Brics, é aliada ou adversária, soma ou divide, ajuda ou atrapalha? Ao mesmo tempo em que investe no Brasil, a China também tira mercado. E não apenas do Brasil...

Independentemente disso, não dá para ficar em elucubrações e alimentar desconfianças. É a China ou a China, que já é o maior parceiro comercial do Brasil no mundo e que, além da soma de interesses, cumpre o papel de atrair a atenção para o País e sinalizar que a crise é braba, mas fazer negócios por aqui ainda vale a pena. É torcer, ou rezar, para que o mundo acredite.

Bala perdida. O embaixador Guilherme Patriota só foi atingido na testa porque passou pelo plenário na hora do tiroteio contra Luiz Fachin. Para salvar Fachin, mataram Patriota.

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