Maryanna Oliveira, Pablo Valadares e Najara Araujo (Câmara dos Deputados)
Maryanna Oliveira, Pablo Valadares e Najara Araujo (Câmara dos Deputados)

De ‘Peppa Pig’ a ‘Nhonho’: a gordofobia como ataque político nas redes sociais

Gordofobia é usada para desqualificar o trabalho de parlamentares e afasta pessoas gordas dos espaços de participação política; deputados Joice Hasselmann, Rodrigo Maia e Sâmia Bonfim já foram alvos

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 11h55

O vazamento de um áudio atribuído à deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), em que pede a criação de perfis nas redes sociais para aumentar sua base de apoio, levou a hashtag #GabinetedaPeppa a liderar os assuntos mais comentados no Twitter na tarde de terça-feira, 28.

Não foi a primeira vez que a deputada foi comparada à Peppa Pig, personagem de uma animação infantil homônima. Desde outubro, quando Joice rompeu com o presidente Jair Bolsonaro, os ataques gordofóbicos se acentuaram. Em 19 de outubro, quando ela e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disputavam a liderança do partido na Câmara, a hashtag #DeixedeSeguirPepa também chegou aos trending topics do Twitter.

Na disputa das hashtags, com frequência, internautas e adversários políticos comparam a deputada a porcas – além da Peppa Pig, Joice também é chamada de Miss Piggy, personagem da série Os Muppets.

“Eu não ataco a sua competência, a qualidade do seu trabalho, se você é corrupto ou não, porque essas são coisas que dá para esconder. A gordura a gente não disfarça, então o ataque fica pelo corpo, a partir do próprio corpo”, explica Agnes de Sousa Arruda, doutora em Comunicação e autora do livro “O peso e a mídia”, com lançamento previsto para o segundo semestre.

Em novembro, discursando na tribuna da Câmara, Joice se emocionou ao revelar uma conversa que teve com o filho sobre os ataques. “Mãe, por que estão chamando a senhora de porca na internet? Por que estão chamando a senhora de ‘pig’? Não foi a senhora que ajudou tanto esse governo?”, relatou a deputada.

Para a pesquisadora, a gordofobia é uma questão tão naturalizada na sociedade que seus alvos nem sempre percebem que os ataques são preconceituosos, mesmo quando são comparados a animais e, assim, acabam sendo desumanizados por seus agressores.

“Ela chora porque ela foi chamada de gorda, mas não consegue entender – e aí não é só a Joice, mas grande parte da sociedade – que ela não deveria ser hostilizada daquela forma. Que a forma física dela nada diz sobre o trabalho que ela desempenha”, pontua Agnes.

Nas entrelinhas, a ofensa supera a barreira do corpo e passa a tentar desqualificar seu trabalho. “Um dos estereótipos sobre a pessoa gorda é o fato de que ela seria incompetente, desleixada, desmotivada, incapaz de cumprir uma meta, porque a ideia é de que a pessoa gorda não consegue nem manter uma dieta”, afirma a pesquisadora. 

Na leitura da filósofa Maria Luisa Jimenez Jimenez, que estudou a gordofobia em seu doutorado, os próprios estigmatizados aceitam essa ofensa como punição por acreditar que ter um corpo que não é magro é um erro deles.

“É um processo profundo e cruel. Esses corpos sofrem desde a infância em espaços que a gente considera como seguros, como a própria família que é gordofóbica sem perceber. A gordofobia não aparece escancaradamente porque ela vem disfarçada como um suposto cuidado, um discurso de saúde”, aponta Maria Luisa.

‘Desse tamanho e ainda tá com fome!’

No início do mês, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) compartilhou o vídeo de uma entrevista do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com a legenda “Desse tamanho e ainda tá com fome!”.

Na disputa das hashtags, Maia também é alvo de ataques gordofóbicos. No domingo, 26, a hashtag #MaiaTemQueSair ocupava o topo dos assuntos mais comentados no Twitter. Entre as postagens dos internautas estavam comparações a porcos e ao personagem Nhonho, do seriado Chaves.

Maria Luisa defende que a ideia de ser gordo não deveria ser vista como uma ofensa. “A palavra gordo não é um xingamento. Ninguém fala 'seu magro', 'seu alto', 'seu baixo'. O termo tem que ser percebido como um adjetivo sem conotação positiva ou negativa. Quando a gente arranca esse sentimento de horror que existe ligado a esse adjetivo, começamos a entender que não tem problema ser gordo”, afirmou. 

O presidente da Câmara já minimizou os ataques ao seu peso, dizendo que faria dieta.


De acordo com Agnes, Maia tenta ocupar o estereótipo do “gordo engraçado” como um mecanismo de defesa. “Eu não deixo de me magoar, mas eu dou risada, tiro sarro de mim mesmo, antes que outras pessoas tirem”, explica a pesquisadora, reforçando que se trata de mais uma consequência da naturalização da gordofobia.

‘Sou uma deputada federal, não importa o quanto eu peso’

Em junho, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) chamou a colega Sâmia Bonfim (PSOL-SP) de “hamburgão da Câmara” em uma postagem no Twitter. Frota utilizou as acusações de estupro envolvendo o jogador Neymar para provocar a deputada. “Esperando a deputada Sâmia Bomfim chamar o Neymar de estuprador, machista, misógino, mulherengofobico e criar um evento para tentar acabar com a carreira do cara. É assim que trabalha o hamburgão da Câmara Federal”, escreveu.

A postagem foi criticada por parlamentares da Casa e gerou uma nota de repúdio da Secretaria da Mulher da Câmara. “A agressão sofrida pela Deputada Sâmia Bonfim expressa não somente a discordância de sua opinião política, mas também o desprezo contra as mulheres que exercem o poder político em igualdade com os homens”, afirmou o texto.

Depois da repercussão, Frota apagou o tuíte e pediu desculpas à colega no plenário da Câmara.

Sobre o episódio, Sâmia afirmou que sua forma física não interfere no desempenho como parlamentar. “Eu sou uma deputada federal, não importa o quanto eu peso”, disse em entrevista ao UOL.

Na avaliação de Maria Luisa, mulheres costumam sofrer mais com a gordofobia. “Existe uma pressão estética. A beleza da mulher é um objeto socialmente importantíssimo. E o corpo gordo tá associado a tudo aquilo que não é belo”, pondera, ressaltando que a pressão pelo corpo magro recai até mesmo sobre mulheres que estão fora do “padrão”, mas não são gordas, como é o caso da deputada Sâmia.

O preconceito pode estar afastando pessoas gordas da política, frisa Agnes. “Existe esse processo acontecendo na política, de sinalizar o tempo todo que esse lugar não é para você, que gente gorda não tem espaço. O espaço político é de todos nós, então o princípio básico da democracia é que todas as pessoas têm condições de serem representadas e representarem outras pessoas”, defendeu.

Maria Luisa acredita que estimular a ocupação dos espaços políticos por pessoas gordas é fundamental para a formulação de políticas públicas específicas para essa população, como o acesso a empregos formais e a criação de protocolos especiais para atendimentos de saúde.

“A gente passa nossa vida toda acreditando que os ambientes e os espaços não são para a gente, sabe? Até literalmente porque a gente não cabe numa cadeira, não passa numa catraca de ônibus, tem que comprar duas poltronas para viajar de avião... É uma vida toda de anulação. Então que a gordofobia não seja mais um impedimento entre tantos outros nesse sistema democrático”, conclui Agnes.

 

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