De olho em Chávez, militares da Amazônia vão treinar no Haiti

Exército mandará pela primeira vez no próximo ano tropas de selva para a missão de paz da ONU no Caribe

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

06 de novembro de 2007 | 16h16

O Exército já decidiu de onde partirá o próximo contingente de 1.200 militares brasileiros que serão enviados ao Haiti. A tropa sairá de uma região que, devido à importância estratégia na defesa nacional, é a única que até hoje não tirou homens para mandar para a missão de paz no Caribe: a Amazônia.Leia também: Exército treina para o Haiti em morro do Rio Acompanhe a ação do Exército com a PM no morro do RioAcompanhe uma patrulha na região mais violenta do Haiti A decisão de enviar uma tropa de selva para um ambiente urbano na capital haitiana, Porto Príncipe, pode parecer estranha, mas decorre da preocupação de que os militares da fronteira tenham treinamento de combate real.A região amazônica tem 2.200 quilômetros de divisa com a Venezuela e outros 1.605 quilômetros com a Guiana, cuja parte do território rica em minérios, o Essequibo, é reivindicada pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.Nos últimos meses, Chávez deflagrou uma corrida armamentista no continente, adquirindo uma frota de cinco poderosos submarinos de ataque russos, mísseis antiaéreos e outros 60 caças supersônicos S-30, assustando os vizinhos latinos. Uma cerimônia será realizada em Belém na próxima segunda-feira, dia 12, para caracterizar o início da formação do 9º contingente, explica o general Augusto Heleno Ribeiro, que comanda o Exército na Amazônia. O treinamento específico para os confrontos contra as gangues que os militares enfrentarão no Haiti começa no final de janeiro e início de fevereiro. A tropa deve chegar efetivamente ao Caribe entre junho e julho.Os combatentes serão selecionados no 1º Batalhão de Infantaria de Selva de Manaus (AM), na 23ª Brigada de Infantaria de Selva de Marabá (PA) e no 2º Batalhão de Infantaria de Selva (2º BIS) de Belém (PA). Na divisa com a Venezuela, nada de mudanças."Na fronteira, a gente não vai mexer, são efetivos que se precisa manter. E se agente tirar, pesa muito para os que ficam, pois nos batalhões de fronteira trabalhamos com o sistema de rodízio. Mas vamos treinar pessoal que pode ir para a fronteira no futuro", diz Heleno.Contudo, segundo o general, para recrutar gente para qualificações de difícil formação, será necessário "catar gente na Amazônia inteira" ou até mesmo solicitar militares de algumas especialidades de outras áreas do Brasil, como mecânicos dos blindados Urutu, que devem sair de Caçapava, São Paulo.Apesar do número reduzido de homens - apenas 24 mil para guarnecer os Estados de Amazonas, Amapá, Rondônia, Roraima e Acre, além do norte do Tocantins - Heleno diz que não pode privar os soldados da Amazônia de ter a "experiência do Haiti". Desde que a missão das Nações Unidas para estabilização do Haiti(Minustah) foi criada, em maio de 2004, após um levante de violência provocar a deposição do então presidente Jean-Bertrand Aristide, o Exército já enviou mais de 8.600 militares em oito contingentes ao Haiti.VenezuelaQuanto ao perigo de um ataque da Venezuela, o general diz que não há "nenhuma ameaça delineada", e que o Exército só começa a trabalhar no sentido de prevenção, e ainda secretamente, quando há algo mais concreto."A Venezuela é um país amigo, soberano, e tem todo o direito de comprar o armamento que quiser. Fazemos operações combinadas na Amazônia e outros treinamentos, mas de caráter preventivo e de repressão de ilícitos", comenta Heleno.

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