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José Roberto de Toledo
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De milagres e ministros

O melhor da posse de Dilma Rousseff é que quem ganhou levou. Como notou o jornalista Fernando Rodrigues, já faz um século desde a última vez que o Brasil teve sete presidentes eleitos direta e consecutivamente e que foram empossados. Como, à época, mulheres não votavam, nunca o País teve um período democrático tão longo e duradouro quanto hoje. Necessário, mas insuficiente.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2015 | 02h01

O ciclo de desenvolvimento via expansão do mercado interno e inclusão social parece ter se esgotado. Mais do mesmo já não basta. Insistir nas mesmas ações esperando resultados diferentes é definição de loucura, não de coerência ideológica. A presidente rendeu-se às circunstâncias e mudou porque precisou. Cercou-se do time que imagina ser necessário para: 1) completar o mandato, 2) conseguir aprovar o arroz-com-feijão no Congresso.

O possível ela fez agora; o impossível, sabe-se lá quando. Vai depender do desempenho da nova equipe econômica e do tempo que os cortes a serem executados levarão para surtir efeito positivo - isso, pressupondo-se que o efeito será positivo. Novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa disse esperar uma recuperação rápida após o ajuste fiscal: "A economia brasileira sempre mostrou muita capacidade de adequação às mudanças".

Vai aí uma dose de otimismo temperada por generosa pitada de desejo. Quanto mais demorar para a economia mostrar recuperação, maior será a pressão dentro do governo e do PT para a retomada do modelo antigo. Por isso, a dupla Levy-Barbosa não corre uma maratona, nem mesmo uma São Silvestre. No máximo, uns 800 metros com barreiras, muitas barreiras - e fogo-amigo. Dilma fixou o deadline no seu discurso de posse: "o impossível se faz agora".

Milagre mesmo vai ser o novo ministério escapar de noticiário que inclua as palavras investigação, denúncia e suspeição. Nada pessoal. É a ordem natural das coisas quando o cargo de ministro é mero contrapeso a apoio político-partidário. Quem é nomeado nesses termos está ali para atender aos seus correligionários - e, se der, ao público. Nessa ordem. Tem sido assim de Sarney a Dilma, passando por Collor, Itamar, FHC e Lula.

Como a única coisa que se aprende da história é que não se aprende com a história (apud Hegel), um presidente democrático após o outro tem formado ministérios que foram uma sucessão de decepções. A única vantagem da nova equipe montada por Dilma é que as expectativas (salvo as depositadas na equipe econômica) são tão baixas que qualquer coisa positiva virá a ser surpresa.

As expectativas são proporcionais ao cofre de cada pasta. A área econômica corta a maior fatia do bolo. Em 2014, foram R$ 622 bilhões em refinanciamento da dívida interna e R$ 278 bilhões em serviço dessa dívida. Esses R$ 900 bi são proporcionais à taxa de juros e à aposta do mercado sobre a capacidade do governo de pagar a dívida. A conta saiu 20% mais cara no ano passado do que em 2013, já descontada a inflação. Sucesso será diminuí-la.

A segunda maior fatia está no prato do Ministério da Previdência, a ser comandado pelo petista Carlos Gabas, um servidor de carreira da área. Foram R$ 391 bilhões em 2014, mas em dinheiro carimbado: pagamento de pensões, aposentadorias e benefícios fixados em lei. Tem pouca margem de manobra, fora uma reforma previdenciária que precisaria passar pelo Congresso.

As 3ª, 4ª e 5ª maiores fatias são quase equivalentes e estarão sob a guarda do PROS (Cid Gomes, na Educação), do PDT (Manoel Dias, no Trabalho) e do PT (Jaques Wagner, na Defesa). Juntos, gastaram cerca de R$ 200 bilhões em 2014. Na Educação, a mina de ouro foram os R$ 13,5 bi para financiar alunos em faculdades particulares - já na mira de cortes da nova equipe econômica.

Depois vêm Saúde (PT), Cidades (foi para Gilberto Kassab, do PSD) e Transportes (PR). Dos top 10, o PMDB ficou só com o 9º e o 10º: Minas e Energia e Agricultura. Isso já foi um milagre.

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