Acervo Estadão
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De Getúlio a Collor, familiares instauraram crises nos governos federais

Assim como o vereador Carlos Bolsonaro, declarações de familiares de presidentes durante seus governos iniciaram crises nas administrações

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2019 | 09h00

O envolvimento de um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro em questões relacionadas ao governo federal não é um episódio inédito na recente política brasileira. O vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, deu início publicamente à crise no Palácio do Planalto, após acusar o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, de mentir a respeito de sua relação com o presidente. 

Bebianno deve ser exonerado nesta segunda, 18, contra a vontade das alas política e militar do governo. Ele promete "não poupar" Carlos em seus próximos relatos, garantindo que os fatos de que tem conhecimento devem respingar no presidente.

Confira casos em que familiares de ex-presidentes brasileiros iniciaram uma crise no governo. 

Getúlio Vargas e o irmão Bejo Vargas  - O fato que culminou na crise do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), e posteriormente no seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, tem relação direta com um de seus irmãos, Bejo (Benjamin) Vargas. 

O jornalista e então vereador do Distrito Federal pela União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda, era um dos principais oposicionistas do governo, além de fazer uso do seu jornal, Tribuna da Imprensa, para criticar Getúlio Vargas. Em 5 de agosto de 1954, Lacerda foi uma das vítimas do atentado da rua Toneleros, local da sua residência no Rio de Janeiro. O major-aviador Rubens Vaz, que fazia a segurança de Lacerda, foi morto nesta data, enquanto o vereador levou um tiro no pé. 

Lacerda insinuou que o presidente estaria envolvido no atentado. Posteriormente, as investigações apontaram que os mandantes do crime teriam sido o chefe da guarda pessoal de Vargas, Gregório Fortunato, e Bejo Vargas. O filho mais velho de Getúlio, Lutero Vargas, chegou a ser mencionado pelo atirador em um dos inquéritos, mas nunca foi indiciado. A crise no governo aumentou, levando o presidente a tirar a própria vida.  

João Goulart e o cunhado Leonel Brizola - É comum atribuir ao político gaúcho Leonel Brizola um dos motivos pela ascensão do regime militar em 1964. Casado com Neusa Goulart, seu cunhado na época, João Goulart, era presidente do Brasil. Desde a posse de Jango, em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, ele era visto como uma "ameaça comunista" ao País. Esse argumento quase impediu que Jango, eleito vice de Jânio, assumisse o cargo, como prevê a legislação. 

Brizola rompeu relações com Jango em 1963, quando tentava se candidatar para o cargo no Ministério da Economia, em meio a uma crise econômica. Ele acreditava que o governo federal deveria se alinhar somente com partidos de esquerda, a fim de evitar radicalmente a mobilização dos militares, enquanto Jango tentava articular relações menos extremistas, com partidos não alinhados completamente à pauta da esquerda. 

As declarações públicas de Brizola defendendo tanto uma revolução, quanto o fechamento do Congresso Nacional menos de um mês antes da derrubada de Jango, agravaram ainda mais a situação. Jango e Brizola se exilaram no Uruguai após a instauração do governo militar. 

Fernando Collor de Mello e o irmão Pedro Collor de Mello - Em entrevista à Revista Veja em maio de 1992, o irmão do então presidente Fernando Collor de Mello, Pedro Collor de Mello, revelou detalhes de um esquema de corrupção articulado pelo presidente e pelo ex-tesoureiro de sua campanha, Paulo César Farias. Ele acusou o tesoureiro de ser o "testa de ferro" do presidente.

 Denúncias de desvio de dinheiro público para beneficiamento próprio por parte do presidente já haviam sido iniciadas antes, mas foi a partir do depoimento de Pedro que o Congresso Nacional instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a relação dos negócios de PC Farias com o governo federal. Contas fantasma sob o nome das empresas de PC Farias, relacionadas ao governo, eram utilizadas para os desvios e para pagamentos. 

A Câmara dos Deputados abre o processo de impeachment de Fernando Collor em setembro de 1992. Collor é afastado do cargo, e antes do Senado votar o impeachment, ele renuncia. 

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