De gênio do cálculo às disputas milionárias

Após fundar Opportunity, Dantas ficou conhecido pelas artimanhas financeiras e ligação com fundos de pensão

Irany Tereza e Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

09 de julho de 2008 | 00h00

Quando fundou, em 1994, o Banco Opportunity, Daniel Dantas ainda desfrutava de resquícios da fama de gênio do cálculo, que conquistou como um dos mais brilhantes alunos do economista e ex-ministro Mario Henrique Simonsen. Mas, aos 38 anos, iniciava ali uma coleção de conflitos e acusações que se tornaria a sua marca: a busca por apadrinhamentos políticos e o uso de engenhosas artimanhas financeiras que lhe garantiam controle na gestão de negócios com recursos de terceiros.Na política, o baiano Dantas foi "adotado" pelo PFL do conterrâneo Antonio Carlos Magalhães, amigo do pai do banqueiro (empresário do ramo têxtil da Bahia); chegou a ser cogitado para o Ministério da Fazenda na gestão de Fernando Collor e, no governo Lula, aproximou-se do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Nas finanças, teve a parceria inicial do ex-BC Persio Arida, no Opportunity, e conseguiu associar-se, no fim dos anos 1990, aos principais investidores brasileiros: os fundos de pensão.Os fundos entravam com o dinheiro e Dantas, com a experiência. "Ele era um homem extremamente brilhante e sedutor. Naquela época, todo mundo queria se associar ao Daniel", recorda um ex-funcionário, que trabalhou para Dantas no ano de fundação do Opportunity. Em 1997, o Citi foi um deles. O banco americano escolheu a recém-criada instituição de Dantas para gerir um dos maiores fundos de investimento do Brasil. A parceria durou até março de 2005, quando o Citi comunicou o rompimento do acordo sem aviso prévio.O banqueiro sempre fez tudo com indisfarçável esforço para manter uma distância segura dos holofotes. Dantas - que enriqueceu operando o dinheiro alheio - é um homem de bastidores. Nem mesmo apareceu no desfecho da longeva briga societária do setor de telecomunicações, que se estendeu por quase nove anos e culminou com o acordo de compra da Brasil Telecom pela Oi (antiga Telemar). Assinou a papelada no Opportunity, no 28º de um edifício no centro do Rio, com deslumbrante vista para a Baía de Guanabara, e enviou para o local da reunião seus executivos de confiança, Maria Amália Coutrim e Arthur Carvalho, também presos ontem pela Polícia Federal.Ontem, o site do Opportunity veiculava um comunicado aos clientes indicando que seus fundos continuavam "operando normalmente", mas o novo golpe sofrido por Dantas deixa dúvidas quanto ao futuro de seu império, que começou a desmoronar em 2000, quando os litígios societários se tornaram públicos. Os inimigos vão desde o ex-sócio Luis Roberto Demarco até os representantes dos fundos de pensão estatais - Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica) - e o então ministro da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken. O golpe mais forte veio da Previ, que proibiu as mais de cem empresas nas quais têm participação de fazer negócios com o Opportunity. Em 2003, os fundos conseguiram destituir o banco da condição de gestor na Brasil Telecom. Um ano depois, o banqueiro fugiu do País para não ser preso pela Polícia Federal na Operação Chacal. Dantas foi acusado de contratar a Kroll para espionar a Telecom Itália e autoridades brasileiras. Há três anos, em entrevista ao Estado, ele atribuiu as brigas a questões puramente comerciais. "Não acho que seja ato político. Nessa disputa societária há muito valor em jogo para que eu tenha a interpretação de que seja apenas política. Pode-se dizer com clareza que existe ingerência política numa disputa que deveria ser só societária", afirmou Dantas na época.Todas essas disputas transformaram o banqueiro em um sujeito paranóico. Nos últimos anos, raramente usava o telefone fixo. A sede do banco ganhou salas monitoradas por circuito interno de TV. Ele chegou ao extremo de mandar instalar um sistema de som no forro do teto do banco e fazer reuniões dentro de um avião, enquanto sobrevoava o Rio de Janeiro. Tudo para fugir dos grampos. No ano passado, ele revelou à revista Piauí que já estava acostumado a viver vigiado. Quando perguntado pela repórter se não existia nada que o amedrontasse, ele soltou uma gargalhada e respondeu: a Polícia Federal. Diante das investigações, fica uma dúvida: o que levou Dantas, um engenheiro civil, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em economia, a tomar esse rumo empresarial? Dois banqueiros consultados pelo Estado dizem que é ambição desmedida.

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