De família tradicional a vigia de cemitério

Gama, que combateu guerrilha nos anos 70, sonha com uma indenização

Leonêncio Nossa, MARABÁ, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2009 | 00h00

O vigia do cemitério São Miguel, José Admilson de Gama, de 55 anos, é a face da antiga elite do sul do Pará. Filho de uma família tradicional de proprietários de terra em Marabá, ele atuou como soldado nos combates à guerrilha do Araguaia em 1972 para satisfazer os caprichos dos pais e tios. Estava no grupo que prendeu o guerrilheiro Eduardo Monteiro Teixeira e viu outros comunistas serem rendidos. Arquivo Curió: Guerrilha do Araguaia ganha nova versãoO final da guerrilha, em janeiro de 1975, representou também uma mudança na estrutura da cidade e da região. Novos empresários e fazendeiros chegaram para ocupar a terra arrasada e concorrer com os antigos latifundiários. Muitas famílias tradicionais entraram em decadência. Foi o caso dos Gama, que vendeu suas posses no começo dos anos 1980. Atualmente, José Admilson sobrevive com R$ 600 que recebe da prefeitura de Marabá. Quando uma equipe do Exército esteve no cemitério, no mês passado, para uma análise preliminar do local onde guerrilheiros podem ter sido enterrados, José Admilson se animou. Ele espera entrar na lista dos beneficiados com indenizações."Nós, soldados novos, nunca tínhamos pegado um fuzil na vida", relata. "Só quando entramos na selva o comandante disse que existia uma guerrilha." O primeiro integrante da guerrilha morto pelo Exército, o barqueiro Lourival Paulino de Moura, em abril de 1972, foi enterrado no cemitério vigiado por José Admilson. Oficialmente, Lourival, um apoio forte dos guerrilheiros, se enforcou na prisão de Xambioá, cidade a 150 quilômetros de Marabá. O barqueiro, no entanto, foi executado. Ele era visto como um aliado de Osvaldo Orlando da Costa, o comandante guerrilheiro.Ao Estado, José Admilson disse que a situação dos ex-combatentes poderia mudar com as revelações do oficial Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, um dos protagonistas dos combates à guerrilha. "Vocês viram que o Curió jogou merda no ventilador? Abriu o jogo. Abriu uma mala de couro", contou. "Na verdade, vivíamos no regime militar. A gente não tinha outra alternativa. Eu tinha mesmo de acompanhar o Exército."

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