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José Roberto de Toledo
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De birutas e bombas

Não há vácuo no poder. Quando o eleito não o exerce, outros o fazem. E, ao exercê-lo, impõem sua própria agenda. Acuados pela impopularidade, pelas ruas e pela Lava Jato, Dilma e o PT retiraram-se do centro decisório. Ocuparam o espaço Joaquim Levy na economia, e o PMDB na política. O plano do ministro da Fazenda é claro: desfaz parte do que Dilma fez. O do PMDB não. Pela simples razão de que não há um, mas muitos PMDBs.

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2015 | 02h03

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, disputa a primazia de definir a agenda política com o presidente do Senado, Renan Calheiros, que, por sua vez, confronta publicamente o vice-presidente Michel Temer, emaranhando sua articulação. Os três são do PMDB, mas cada um quer tirar partido do vácuo decisório.

Com o governo desnorteado, o Congresso vira biruta de aeroporto. Aponta a cada hora para um lado. Não gira com o vento, mas por pressão dos lobbies empresariais e corporativos. É a chance para quem tem aquele projeto encalhado de finalmente aprová-lo. Qualquer parvoíce pode passar. Tem deputado propondo cadeia a quem noticiar algo protegido por sigilo fiscal ou bancário. Sorte de quem está metido no Swissleaks ou na Operação Zelotes.

A balbúrdia abre tantas oportunidades que o impeachment de Dilma deixou de ser conveniente à maioria dos atores políticos. Ao menos enquanto acharem que têm chances de emplacar o que querem.

Nota zero. Na opinião de seus colegas de PSDB, faltou habilidade política ao governador do Paraná, Beto Richa, durante a repressão aos professores. Em tucanês, isso é quase uma ofensa. Mas, se a inabilidade do governador fosse só política, os hospitais de Curitiba não teriam ficado lotados de feridos por balas de borracha, estilhaços de bombas e mordidas de cachorro.

Richa e seus - em tese - subordinados deram à tropa da PM a liberdade de um drone norte-americano no Afeganistão. O resultado não chegou a ser um "massacre", mas poderia ter sido. Foi um desastre operacional, humanitário e - como reconhecem os tucanos - também político. Não ajudou em nada a popularizar a imagem do PSDB. Deu munição para petistas e outros rivais.

A chuva de bombas de gás e balas de borracha - disparadas contra os rostos dos alvos - foi muito desproporcional a qualquer ameaça que os professores desarmados pudessem representar. No confronto da pele de um cinegrafista contra os caninos de um pitbull é fácil imaginar qual lado acabou na mesa de cirurgia.

Seguiram-se duas negativas emblemáticas. A polícia foi instada a desmentir que a foto publicada no Facebook por um PM tingido de vermelho fosse de alguém ensanguentado. Era só tinta, disparada pela própria polícia, para marcar os manifestantes. A confusão e a profusão de disparos foi tamanha que pintaram o colega. A PM negou também que tivesse punido policiais por se negarem a participar da repressão. Ou seja, ninguém foi punido por nada.

Ao contrário. A PM avaliou que seus homens usaram a força certa. E o governador mostrou-se menos preocupado com o modo de agir dos policiais do que com um imaginário grupo de "black blocs" que, segundo ele, teria se infiltrado entre os professores. Nas imagens, porém, há pouco preto e muito vermelho - de bandeiras e camisetas da oposição, da tinta disparada pela PM e de sangue.

Não é a primeira vez que policiais do Paraná agem sem medo das consequências. Pelo menos dois jornalistas paranaenses que tiveram a coragem de denunciar policiais corruptos ao longo dos últimos anos tiveram que sair do Estado porque receberam ameaças de morte. Repórteres que participaram da cobertura foram intimados e acareados com agentes que não eram suspeitos de nada a não ser de terem sido as fontes das denúncias de corrupção.

Pela atitude até agora dos governantes paranaenses, nada deve mudar. O poder e influência dos policiais não correm risco. O mesmo não pode ser dito de professores e jornalistas.

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