JB Neto/AE
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De bicicleta, uma outra São Paulo

O oceanógrafo Helvio optou por usar a bike como transporte, mas conta que SP não tem infraestrutura para quem quer vida saudável e cidade sustentável

Felipe Frazão, de O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 16h00

Há um ano, o oceanógrafo Helvio Gregório, de 29 anos, decidiu tentar se libertar de um problema típico da capital paulista: os engarrafamentos. Queria controlar seus horários, ter mais mobilidade e, consequentemente, mais qualidade de vida. Decidiu, então, deixar o Ford Ka verde metálico na garagem do edifício onde mora na Vila Indiana, zona oeste, e pedalar 12 quilômetros até o trabalho em Pinheiros, na mesma região. Todos os dias. "Eu ficava refém do trânsito, não conseguia me programar. Queria me livrar disso, ser dono do meu tempo", explica.

Paulista de Itu radicado em São Paulo, ele conseguiu uma maneira de se exercitar num período do dia antes desperdiçado. Fugiu do estresse e da sensação de estar aprisionado em congestionamentos que chegaram, em 1.º de junho, à marca recorde de 295 quilômetros de extensão. "Fico satisfeito ao ver um monte de trânsito e não fazer parte."

Helvio não é um "cicloativista padrão", daqueles que participam de grupos de pedal. Mas milita pela segurança ajudando a instalar ghost bikes - bicicletas fantasmas pintadas de branco e inseridas na paisagem urbana para simbolizar a morte de algum ciclista no trânsito. Neste ano, pelo menos quatro ciclistas morreram em acidentes. No ano passado, outros 49 perderam a vida no trânsito, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

O hábito de pedalar nas ruas, lado a lado de veículos maiores e mais barulhentos, trouxe momentos de medo - sobretudo quando há notícia de acidentes. A aflição aumenta à noite, quando a iluminação cai: "O tráfego fica mais carregado e os motoristas, mais estressados. As dificuldades são as fechadas e finas (quando veículos passam quase de raspão)".

O aumento de acidentes levou a CET, desde maio, a multar motoristas que dão fechadas em ciclistas. Agora, marronzinhos circulam de bike para fiscalizar. Helvio reconhece, porém, que muitos ciclistas também desrespeitam o código de trânsito. E sugere: "Se você quer usar a bicicleta como meio de transporte, tem de se portar como todo mundo que usa a via. Seguir as leis".

Intercâmbio. Experiências dentro e fora do País mudaram a visão de Helvio sobre mobilidade urbana. Ele andou somente de ônibus durante os seis meses de trabalho em Bogotá, capital da Colômbia famosa pelo sistema de ônibus TransMilenio. Em Santos, no litoral do Estado, circulou de bicicleta por três anos e meio. Quando veio para a capital, testou carro e ônibus, mas optou pela bike. "Passamos a perceber a cidade em ritmo mais humanizado", diz Helvio. "Imagine se São Paulo se tornar uma cidade amigável para a bicicleta?"

O caminho até a imagem acima ainda está nas primeiras pedaladas. São Paulo, com seus 17 mil km de vias públicas, conta com apenas 54 km de ciclovias, 48 de rotas com passagem preferencial e 3 de ciclofaixa definitiva. Helvio, por exemplo, só utiliza 280 m de ciclovia no canteiro central da Avenida Afrânio Peixoto, em seu caminho diário. Mas diz não se arrepender da escolha.

O fator principal para ele ter largado o carro e adotado a bicicleta foi atravessar distâncias pequenas. Agora, só usa carro para andar mais de 20 quilômetros ou se algum compromisso exige um traje mais formal. Na ida, ele percorre 6,4 quilômetros. E pedala outros 5,6 quilômetros na volta. Faz cada perna do trajeto em cerca de 25 minutos.

Percorrer trechos curtos, aliás, foi decisivo para moradores da Grande São Paulo adotarem a bike como forma de locomoção. Na última pesquisa Origem e Destino do Metrô, 56% dos entrevistados disseram que o motivo era a distância pequena. A segunda razão era que gastavam mais com a condução alternativa, disseram 22% dos bikers. O levantamento, de 2007, identificou 88 mil ciclistas residentes em São Paulo - onde eram feitas, à época, 147 mil viagens de bicicleta por dia. Duas delas, atualmente, são de Helvio.

Rotina. De segunda a sexta, ele sai do apartamento às 7h50, coloca o capacete e sobe na bike (modelo dobrável de R$ 1,8 mil) para ir do Butantã a Pinheiros. Prefere já vestir a mesma roupa com que vai passar o dia inteiro no escritório da Mineral Engenharia e Meio Ambiente: tênis, camisa xadrez de botões e calça cinza. "Gosto de andar com a roupa de trabalho, porque os motoristas respeitam mais, veem que você usa bicicleta como meio de transporte, e não por diversão."

Helvio experimentou, em busca de segurança, trajetos paralelos; e viu outra São Paulo, mais verde e tranquila, se revelar do lado de casa. "Tem ruas que eu nem sabia que existiam. Você começa a procurar caminhos alternativos e descobre partes da cidade que não imaginava."

Ali, pedala à sombra, sob um corredor verde de árvores - algo raro na cidade. O ciclista vive numa das áreas mais arborizadas da capital, em contraste com o centro antigo e a zona leste. Ele diz que, dado o abrigo natural contra o sol e o calor, o clima não incomoda tanto - à exceção do verão. Mas a degradação ambiental, efeito direto do tipo de transporte predominante em São Paulo, sim.

Ao descer a Avenida Rebouças, cercada de prédios e concreto, o ciclista respira a fumaça preta que sai do escapamento dos coletivos, irrita os olhos e o nariz. E aguenta o cheiro fétido do Rio Pinheiros ao passar sobre a Ponte Eusébio Matoso.

Mesmo assim, ele se sente bem quando chega em casa. E permanece sonhando com uma cidade onde haja integração modal: "São Paulo é toda construída para carros. Se tivesse uma estrutura cicloviária que possibilitasse tanto sua irmã de 9 anos quanto sua mãe de 60 irem de um lugar a outro sem perigo, seria o ideal de sustentabilidade e qualidade de vida".

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