De anarco-punks a índios, é variado o público do Fórum Social

Com vista para o Rio Guaíba, barracas multicoloridas chamam a atenção. Até a ex-primeira-dama da França Danielle Mitterrand apareceu por lá para conhecer o acampamento dos índios. Mas não são só eles que estão no terreno do Parque da Harmonia. Além de engajados de vários tons - do vermelho do PT ao verde do PV, passando pelas bandeiras azuisdas Madres de Plaza de Mayo -, há no mosaico de ideologias alguns que nunca ouviram falar em globalização.De discípulos do anarquismo a defensores do capitalismo, existe de tudo naquele pedaço de terra emprestado temporariamente pelo governo do PT: até mesmo quem se defina como "socialista liberal", seja lá o que isso signifique. E todos ali têm um objetivo: acompanhar os debates do Fórum Social Mundial, mesmo de longe. No Parque da Harmonia estão acampados 678 índios e outras 2.000 pessoas, a maioria jovens, que vieram para assistir à reunião que está agitando a capital gaúcha. O Conselho Estadual dos Povos Indígenas e a Prefeitura de Porto Alegre montaram tudo para acomodar os "sem-hotel". O Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTS) é pago para preparar as refeições dos índios, que também receberam colchões. Dez mil preservativos foram distribuídos.A coordenadora executiva do Conselho, Maria Luiza Santos Soares, calcula que o Estado tenha gasto R$ 30 mil com o acampamento, sem contar a contribuição de organizações não-governamentais. "Convidamos todas as organizações indígenas, mas não subsidiamos nenhuma vinda", diz ela.Muito além do jardim do Harmonia, convidados brasileiros e internacionais pregam que um outro mundo é possível, com harmonia de fato. A sede do Fórum Social fica a 15 minutos dali, na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Nem todos, porém, vão à PUC. "Lá tem gente mais de classe média alta e é muito caro para mim", afirma o artesão Leonardo de Albuquerque, um gaúcho de 36 anos. Ativista de uma ONG que reúne "anarquistas, anarco-punks e eco-anarquistas", ele acha que o fórum é um ponto de encontro para unificar as lutas e planejar estratégias. Mas espera que, depois de terça-feira - quando se encerram osdebates -, o encontro não vire uma Eco 92, "com muito falatório e pouca ação". Ao contrário de Leonardo, que é informado do que acontece no fórum pelo telão e reuniões no acampamento, o índio Manoel Kaxinawa bate ponto na PUC todos os dias. Manoel saiu do Acre para, como ele mesmo diz, "conhecer os gaúchos e fazer com que os estrangeiros ouçam o povo indígena, olho no olho, e não apenas o que o governo brasileiro fala". O índio Zico Salvador, da tribo Kaingang, concorda com Manoel, embora não saiba o que é globalização. "Não me lembro o que é isso", diz. Homem simples e de poucas palavras, ele veio de uma aldeia a 18 quilômetros de Chapecó (SC) e está tentando vender cestos, anéis e colares, sem muito sucesso. Perto dali, barracas com bandeiras da Força Sindical, rival do PT e da CUT, causam espanto. "Não somos do PT, mas também achamos que esse Fórum Social pode resolver uma pá de coisas", observa Nilson Loyola de Souza, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Brinquedos. Com 34 anos, ele se apresenta como "um socialista liberal", que acredita no capitalismo. Pode? "Quando é para melhorar a vida das pessoas, tudo pode, inclusive esquecer a rivalidade", conclui.

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