Jane de Araújo|Agência Senado
Jane de Araújo|Agência Senado

De aliado a algoz, Renan pede para não ser lembrado de impeachment de Collor

O atual presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o ex-presidente Fernando Collor, agora senador pelo PTC, nunca tiveram a melhor das relações

Isabela Bonfim, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2016 | 12h40

Brasília - O atual presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o ex-presidente Fernando Collor, agora senador pelo PTC, nunca tiveram a melhor das relações. Entre idas e vindas, Renan foi de líder do governo do ex-presidente a algoz em seu processo de impeachment. Nesta semana, Renan pediu para não ser lembrado do dia em que a Câmara autorizou o afastamento de Collor da presidência da República.

"Eu estava em Brasília, não lembro de nada. É um dia que procuro apagar da minha memória", disse Renan em referência à 29 de setembro de 1992, data em que, à semelhança do que pode acontecer com a presidente Dilma Rousseff no próximo domingo, a Câmara votou majoritariamente a favor do impeachment de Collor. Foram 441 votos a favor, 38 contrários, 1 abstenção e 23 ausentes. 

Na época, Renan havia concluído seu segundo mandato como deputado federal e se tornou um crítico ferrenho do governo Collor. Foi Renan quem acusou PC Farias, tesoureiro de campanha do presidente, de comandar um "governo paralelo". Logo em seguida, afirmou que Collor tinha conhecimento do esquema e pediu o seu impeachment.

Renan prestou depoimento na CPI que, à época, investigou as atividades de PC Farias, e aproveitou para denunciar a existência de um "alto comando" da corrupção sediado no Planalto. Do outro lado, Collor  processou Renan por calúnia e difamação.

Não era o primeiro embate entre os caciques políticos. No final da década de 1970, quando Collor era prefeito de Maceió e Renan deputado estadual de Alagoas, em seus discursos ele já se referia a Collor como "príncipe herdeiro da corrupção". 

Assessor do presidente. Mas nem sempre foi assim. Em 1989, unidos sob a mesma sigla, o PRN, Collor lançou sua candidatura à presidência da República e teve Renan como seu assessor. Eleito, Collor contou com Calheiros como líder do PRN e, mais tarde, líder de seu governo na Câmara, papel que usou para garantir a aprovação do pacote emergencial do presidente, que anunciava o saneamento do País. 

Diante de todas as críticas da oposição, Renan trabalhou pela contenção da base com distribuição de cargos no governo e foi, por meses, o testa de ferro de Collor no Congresso Nacional. Ele participou, inclusive, da divulgação da medida menos popular do presidente, o confisco da poupança.

Uma questão local, entretanto, viria a dividir novamente os dois políticos. Na disputa do governo de Alagoas, Renan rompeu com Collor após o presidente se silenciar sobre as acusações de fraude eleitoral cometida pelo candidato adversário, Geraldo Bulhões, que era amigo pessoal do presidente. Renan deixou o PRN e acusou Collor de traição.

Daí por diante, a questão apenas azedou. Mais tarde, Renan travaria com Collor a disputa que levou ao impeachment do presidente.

Quase 25 anos depois, um Renan mais sereno, que conduz sua carreira política evitando o combate direto seja com colegas ou inimigos, se sentiu desconfortável ao falar sobre o tempo passado. "Você me perguntou sobre o negócio do impeachment, mas é aquilo. Por favor, não me lembre dessas coisas", disse desconcertado.

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