Darwin, Feng Shui e a ameaça New Age para o Vaticano

Segundo a igreja católica o fenômeno da new age é uma ameaça para a fé cristã, por isso fiéis, bispos e sacerdotes serão alertados através de um documento que explica o que é e porque tornou-se um de seus maiores desafios. Trata-se do primeiro documento vaticano não-oficial, sobre o problema, tema de diversos estudos, citado em alguns discursos do papa e até em seu livro: "No limiar da esperança". O documento chama-se "Jesus Cristo, portador de água viva", e define new age como "sincretismo de religiões e elementos exotéricos ligados pela idéia de uma mudança fundamental dos indivíduos e da sociedade". O nome refere-se à Era de Aquário, que para os astrólogos marcaria o início do terceiro milênio com o fim da Era de Peixes ou Era Cristã. "Os primeiros símbolos do movimento a penetrarem na cultura ocidental foram o festival de Woodstock e o musical Hair- que expôs os temas principais do new age na emblemática canção Acquarius", informa o texto. Entre as técnicas e teorias que foram assimiladas por essa nova forma de religiosidade e que, segundo a visão católica, podem esconder elementos nocivos para a fé cristã, estão o budismo zen, yoga, ocultismo egípcio, cabala, sufismo, cristianismo celta e druida, alquimia medieval, cristais, antroposofia, exoterismo, teoria de Darwin, feng shui, karma, pensamento positivo, música new age, Rosa Cruz, espiritismo, holismo. Alguns estão na lista em ordem alfabética colocada no final do texto. A facilidade com que se expandiu, inclusive entre operadores católicos que adotam técnicas consideradas próximas à new age como a meditação, deve-se "à falta de atenção à dimensão espiritual e à integração do homem com o conjunto da vida", diz o relatório de 93 paginas escrito pelos Pontifícios Conselhos para a Cultura e para o Dialogo Inter religioso em colaboração com a Congregação para a Evangelização dos Povos e a Congregação para a Doutrina da Fé. Apresentado nesta segunda-feira no Vaticano pelo cardeal Paul Poupard, presidente do pontifício Conselho para a Cultura, o documento afirma que o new age se adaptou bem às leis de mercado e que tenta responder a aspirações legitimas da natureza humana em oposição à revelação crista." Considera Cristo um mestre e não o Salvador, é uma forma de individualismo e narcisismo, nega a transcendência de Deus, não se confronta com a morte e o sofrimento, nega o pecado, evita o empenho e a reivindicação social". Mesmo mantendo a intenção de dialogar com os adeptos dessas novas formas de espiritualidade, a igreja catolica alerta que não se trata de fenômenos inócuos. "Muitos movimentos que nutriram o new age são explicitamente anti-cristãos e sua atitude em relação ao cristianismo não é neutra mas neutralizante" avisa o texto. "A igreja deve se perguntar por que as pessoas vão procurar em outro lugar aquilo que acreditamos ser a nossa razão de existir. Somos mais hábeis em falar de Deus do que colocar as pessoas em contato com Ele", se autocrítica o cardeal Poupard. " O maior desafio, que está na base desse fenômeno, é cultural." analisa para o Estado padre Giovanni Marchesi, jesuíta da conceituada revista Civiltà Cattolica, expressão do ponto de vista da secretaria de estado vaticana. "O documento é um instrumento de estudo para que bispos, sacerdotes, operadores pastorais e culturais entendam os motivos que levam tantas pessoas a procurar satisfação espiritual no New Age", diz, "eu acredito que o motivo seja o vazio religioso e a crise de identidade cultural que o ocidente atravessa. Duas guerras mundiais , nazismo e holocausto, destruíram o homem e mexeram com a visão do mundo."

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