Da mesma 'corrente' de Amorim, Patriota simboliza continuidade, dizem diplomatas

Sua 'boa interlocução' junto à diplomacia americana é apontada como um dos diferenciais do ministro.

Fabrícia Peixoto, BBC

15 Dezembro 2010 | 19h12

Segundo diplomatas, um dos diferenciais de Patriota é sua boa interlocução junto aos EUA

A escolha de Antônio Patriota para o ministério das Relações Exteriores, confirmada nesta quarta-feira, pela presidente eleita Dilma Rousseff, aponta para a continuidade da política externa adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na avaliação de diplomatas ouvidos pela BBC Brasil.

"É claro que poderá haver ajustes, mas ninguém aposta em ruptura com o modelo atual. A perspectiva é de continuidade mesmo", disse um representante do Itamaraty.

A forte aproximação entre Patriota e o atual chanceler, Celso Amorim, é apontada como principal indicador de que não haverá mudanças significativas na estratégia diplomática que vem sendo colocada em prática pelo Itamaraty sob os oito anos de governo Lula.

Em 1993, Patriota passou a atuar ao lado de Amorim na representação brasileira nas ONU - dobradinha que se repetiu em 1999, quando Amorim assumiu o cargo de representante da diplomacia brasileira em Genebra.

Em outubro de 2009, Patriota deixou o cargo de embaixador em Washington para assumir o posto de secretário-geral do Itamaraty, logo abaixo do chanceler.

Entre diplomatas, a avaliação é de que os dois seguem "a mesma corrente" diplomática, com a reforma do Conselho de Segurança da ONU como uma das principais bandeiras.

"A reforma do Conselho, a estratégia de aproximação Sul-Sul, também fazem parte da formação do futuro chanceler", diz um diplomata.

Relação com os EUA

Um dos diferenciais do novo ministro, segundo uma fonte no Palácio do Planalto, deverá ser sua "boa interlocução" junto à diplomacia americana.

Casado com uma americana e tão fluente em inglês que poderia ser confundido com um americano, Patriota fez de sua gestão na embaixada de Washington uma "central de contatos" com o governo local, segundo um assessor próximo.

Um dos principais resultados foi a conquista de uma "ótima relação" com William Burns, subsecretário de Estado norte-americano para assuntos políticos, terceiro na hierarquia do Departamento de Estado.

Mas na avaliação de um diplomata brasileiro, essa boa interlocução não deve se refletir em mudanças na relação com os Estados Unidos, marcada recentemente por discordâncias - como por exemplo em relação ao Irã.

"O Brasil está cada vez mais relevante no cenário internacional. As discordâncias entre os dois países são naturais nesse contexto", diz um diplomata brasileiro baseado em Washington. "É algo que depende menos do perfil do ministro e mais da conjuntura internacional", acrescenta a fonte.

O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia vê a nomeação de Patriota como uma escolha "natural" de quem ocupou "postos-chave" no quadro da diplomacia brasileira.

Ele também acredita que a política externa sob o comando de Patriota terá as mesmas diretrizes do governo atual e que as "matizes" de diferença dependerão da postura da nova presidente.

"Quem vai impor as diferenças, se houver, é a presidente Dilma Rousseff", diz Lampreia.

A avaliação do ex-chanceler é de que Dilma tem perfil "menos político" que Lula e que, por esse motivo, tenderá a ser "menos protagonista" nas discussões internacionais.

"Isso vai permitir que o Patriota tenha uma atuação maior, ao contrário de Amorim, que em algumas ocasiões acabou espremido entre o presidente Lula e outros assessores", diz.

Nascido no Rio de Janeiro, Patriota, de 56 anos, é formado em Filosofia pela Universidade de Genebra. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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