Da Hungria ao Brejal do Millôr

Vários motivos podem levar um presidente da República a renunciar ao mandato, mas só na Hungria, que eu saiba, uma acusação de plágio tem o mesmo peso de um caso de corrupção. Após 19 meses como presidente da Hungria, o ex-esgrimista Pal Schmitt entregou o cargo na segunda-feira porque não suportava mais ser lembrado de que em sua tese de doutorado havia 16 páginas chupadas de um alemão e 180 de um búlgaro. A tese, uma análise do programa dos jogos olímpicos modernos, foi defendida em 1992 na Universidade de Semmelweis.

Sérgio Augusto,

07 Abril 2012 | 18h56

 

Coisas muito piores fizeram outros políticos húngaros, já no poder, e nem é preciso lembrar do preposto stalinista Mátyás Rákosi, sem crise de consciência ou qualquer punição. Por um remoto deslize, aparentemente irrelevante para sua ascensão política, Schmitt sujou o nome, perdeu o título de doutor e enterrou uma carreira. Aqui não precisaria ser tão escrupuloso; até discursos poderia ter plagiado, impunemente, no exercício do poder. Collor não assumiu como seus alguns textos de José Guilherme Merquior?

 

Ora, direis, que Merquior os escrevera para uso legítimo do presidente, que ghost writer todos os chefes de Estado têm, mas, concedido o aparte, pergunto: por que a Academia Alagoana de Letras elegeu Collor imortal, em 2009, já que os artigos e discursos que o alçaram àquele silogeu foram sabidamente escritos por Merquior? O presidente cassado poderia ter desistido da candidatura sem sequer mencionar a palavra plágio, invocando apenas seu ineditismo literário, mas, por não seguir o mesmo código de conduta de Schmitt, assumiu in absentia a cadeira de número 20 da AAL. Sim, in absentia. Principalmente de livros.

 

Seu antecessor no Planalto, José Sarney, não virou imortal por ter sido presidente. Tem redação própria e publicou duas dezenas de livros (prosa, poesia, discursos, crônicas). Antes tivesse-os plagiado de alguém; nem precisava ser do Merquior. Se o pegassem tungando obra alheia, não teria agido como o ex-presidente húngaro. Negaria tudo e não arredaria pé de seus feudos. Quem sabe se lançaria até ao Nobel.

 

Pensei muito no ocupante da cadeira 38 da ABL depois da morte de Millôr Fernandes. Entre tantas proezas, Millôr era o maior expert na obra literária de Sarney. Se não da obra completa de sir Ney, como preferia chamá-lo, ao menos do relato Brejal dos Guajás e Outras Histórias, editado em 1986.

Cabreiro com a enxurrada de elogios ao livro, vindos sobretudo de amigos, cupinchas acadêmicos e puxa-sacos, mas também de um crítico de peso (Leo Gilson Ribeiro), Millôr, àquela altura estarrecido com a jequice dos discursos do presidente, empossado meses antes, releu Brejal dos Guajás como Roland Barthes havia lido Sarrasine, de Balzac. O parâmetro, algo hiperbólico, reconheço, é de minha inteira responsabilidade.

 

"Mais uma vez fui enganado", proclamou no primeiro dos 11 curtos comentários que diariamente dedicou ao Brejal, em seu minifúndio no Jornal do Brasil, em janeiro de 1988, listando a seguir todos os encomiastas do livro. Que, aliás, segundo Millôr, só merecia ser assim qualificado porque a Unesco define livro como uma publicação impressa não periódica com um mínimo de 49 páginas, e Brejal chegou às livrarias com 50.

 

"Não se pode confiar o destino de um povo, sobretudo neste momento especialmente difícil, a um homem que escreve isso", ponderou o humorista, acrescentando que em qualquer país civilizado Brejal seria motivo para impeachment. "Não tendo no cérebro os dois bits mínimos para orientá-lo na concordância entre sujeito e verbo, entre frase e frase, entre ideia e ideia, como exigir dele um programa de governo coerente pelo menos por 24 horas?" Mais que uma indagação, uma presságio.

 

E teve início a implacável desconstrução, acompanhada com avidez e às gargalhadas pelos leitores do JB. Enredo inconsistente, tentativa poética lamentável, filosofia ridícula, personagens mais rasos que um pires, solecismos em penca, ideias que nunca se complementam e sempre se contradizem - não sobrou tijolo sobre tijolo na demolição executada por Millôr.

 

A cidade, nos cafundós do Maranhão, onde se desenrola a ação, não tem escola, mas tem professores e alunos; não tem telégrafo mas transmite e recebe telegramas; não tem edifícios públicos, mas tem prefeitura, câmara de vereadores, juizado de casamento, dois cartórios, afora mercado, lojas, igreja da matriz. Em suas duas únicas ruas, de apenas 120 casas, moram 12.683 pessoas (ou 105 pessoas por casa, pelas contas do Millôr), protegidas por uma força pública de 12 policiais (relativamente ao Rio teria que ter meio milhão de policiais). O realismo fantástico custou, mas chegou ao Maranhão.

 

"Errado da primeira à última frase", segundo o Saint-Beuve do Méier, nem o título de Brejal dos Guajás fazia sentido. Sir Ney confundiu as tribos dos Guajás com a dos Guajajaras.

 

Na antepenúltima exegese, o pândego crítico permitiu-se o luxo de copidescar toda a primeira página do relato respeitando o estilo do autor, mudando léxico e sintaxe só quando fundamental. Dá para conferir tudo no Millôr Online, hospedado no UOL, ou, parcialmente, no verbete Brejal dos Guajás de A Bíblia do Caos, editado pela L&PM. Foi inspirado na magnum opus ficcional de sir Sarney (Os Maribondos de Fogo era de poesia) que Millôr nos legou uma de suas tiradas mais geniais: "É um desses livros que quando você larga não consegue mais pegar."

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