Da clandestinidade para a legalidade

Como brasileiros perseguidos pelo regime militar retomaram a vida

Wilson Tosta, O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2009 | 00h00

Em março de 1980, uma mulher procurou o advogado Luís Eduardo Greenhalgh em São Paulo e, ao ser recebida, deu-lhe um susto: era Victória Grabois, filha de Maurício Grabois, mulher de Gilberto Olímpio Maria e irmã de André Grabois - militantes do PC do B desaparecidos na Guerrilha do Araguaia (1972-1975). A hoje pesquisadora começava a encerrar quase 16 anos de clandestinidade, condição de muitos brasileiros perseguidos pelo regime militar que se aproximava do fim. Foi dada como morta por amigos do Rio, usara documentos com nome falso, com os quais viajara para Mato Grosso e até Europa, criara um filho, cursara universidade, tornara-se professora, alugara casas, comprara carro e fizera greves.Mas foi com nomes verdadeiros que ela e o namorado Gilberto foram para o interior paulista, onde se casaram.Em 1972, procurada pelo secretário-geral do PC do B, João Amazonas, soube do início da guerrilha. Não sabia o que ocorrera ao pai, Maurício, a Gilberto e ao irmão André - ela só teria certeza da morte do pai e do marido em 1980.Adriano, João, Janjão, Pedro. Com vários codinomes, documentos falsos, terno e gravata, óculos e uma arma carregada, o hoje vice-prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Muniz (PMDB), viveu dois períodos de clandestinidade: de 1969 a 1972 e de 1976 a 1979. Dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), Muniz vivia em outros Estados, mas visitava o Rio com frequência. Fazia contatos com Carlos Lamarca (conseguiu tirá-lo da Vanguarda Popular Revolucionária e levá-lo para o MR-8), com o dirigente da ALN Joaquim Câmara Ferreira, com o ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido desde 1971.Viveu como clandestino no Chile, passou por treinamento militar em Cuba e cursou mestrado em Economia na França. No dia da assinatura da anistia, Muniz foi até a Assembleia Legislativa do Rio e, num gabinete parlamentar, concedeu entrevista coletiva, saindo definitivamente da clandestinidade. "Nunca requeri anistia, era uma atitude política", conta. Apesar de achar que a experiência valeu a pena, não a repetiria. "Perdemos muita gente. Era uma forma equivocada de luta."

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