D. Jayme pede "a verdade" sobre abusos no clero

No encerramento da 40.ª assembléia geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), hoje, o presidente da entidade, d. Jayme Chemello, comentou o envolvimento de sacerdotes em crimes de pedofilia. Disse tratar-se de um "problema grave", que vem merecendo atenção especial da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, pediu cuidado para que não se acusem pessoas de forma injusta. "Queremos que a verdade apareça. Iremos ajudar os padres acusados, para que tenham sua defesa assegurada. Se houver crime, eles devem ser punidos, como todo cidadão."Na entrevista coletiva que marcou o encerramento do encontro de bispos, na cidade de Indaiatuba, interior de São Paulo, d. Jayme referiu-se à acusações de pedofilia como "um problema relativamente novo, que está sacudindo o mundo inteiro". Também disse que está estudando melhor o assunto, para dar respostas mais precisas às indagações da sociedade.D. Jayme afirmou que esse tipo de acusação não envolve só padres. Mas reconheceu que toca mais à Igreja, devido à sua missão espiritual.TemorD. Jayme e outros representantes do episcopado que estiveram reunidos em Indaiatuba temem que a onda de denúncias que se abateu sobre o clero do hemisfério norte se repita no Brasil. O assunto já vem sendo discutido no meio do episcopado há algum tempo.Segundo o padre Gino Nasini, um estudioso do assunto, isso reflete uma mudança de pensamento, pois até recentemente a tendência predominante era ignorar as denúncias. "Há indícios claros de abertura. Os bispos estão compreendendo que o problema deve ser encarado e discutido abertamente com a sociedade", disse o padre ao Estado. "O mais importante disso tudo é que começam a dar mais atenção à questão das vítimas dos abusos."Nasini é o autor do livro ?Um Espinho na Carne - Má Conduta e Abuso Sexual por Parte de Clérigos na Igreja Católica do Brasil?. Lançada no ano 2000, sem muito destaque, a obra ganhou uma segunda edição pela Editora Santuário, de Aparecida (SP).O trabalho baseia-se num questionário que foi aplicado a cerca de 60 sacerdotes brasileiros, em 1998, abordando o tema do abuso, definido como o contato sexual entre um sacerdote e outra pessoa pela qual ele é espiritualmente responsável. A partir das informações fornecidas por esses padres, Nasini observou que pelo menos 10% do clero está envolvido em situações de má conduta e abuso. Muitas vezes o alvo do assédio são pessoas também ligadas à Igreja, como outros sacerdotes ou seminaristas.Nasini também verificou que na Igreja Católica do Brasil não havia, até a época da pesquisa, nenhuma política específica para tratar do assunto. A tendência predominante entre os bispos a quem eram encaminhadas as denúncias era de proteção do transgressor e da imagem da instituição.Italiano radicado no Brasil e vinculado à congregação dos missionários xaverianos, Nasini dizia na conclusão do estudo, há mais de dois anos: "É hora da Igreja Católica no Brasil encarar, com urgência, coragem e firmeza, no espírito da pastoral de conjunto que lhe é próprio, o grave problema de má conduto e abuso sexual pelo clero."

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