Cúpula termina com queixas de Chávez e poucos avanços

A II Cúpula da Comunidade Sul-Americana de Nações terminou hoje na cidade boliviana de Cochabamba com boas intenções, mas sem avanços e marcada pelas reclamações do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que denunciou que não o deixaram debater assuntos fundamentais. A cúpula teve a presença de oito dos doze presidentes que formam a organização, mas quatro deles - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além do uruguaio Tabaré Vázquez, do peruano Alan García e da chilena Michelle Bachelet - foram embora antes do encerramento. Os líderes defenderam a integração, mas por diferentes caminhos, e não chegaram a um acordo na forma de alcançá-la. CAN e MercosulA nota discordante foi colocada por Chávez, que rejeitou o convite de seu aliado, o presidente boliviano Evo Morales, de voltar à Comunidade Andina de Nações (CAN) e, além disso, previu o fim do Mercosul se o bloco não mudar sua estratégia de integração. Chávez disse que a CAN "não serve" e manifestou a seus colegas: "quantas reuniões, quantas cúpulas, mas não temos claro para onde vamos" e "agora não há projeto", comentários com os quais o uruguaio Vázquez coincidiu. As declarações do presidente venezuelano surpreenderam o anfitrião, Morales, que disse que a CAN e o Mercosul são "instrumentos efetivos". Bachelet apostou em tirar partido da globalização, já Alan García defendeu o tratado de livre-comércio que o Peru assinou com os EUA e aguarda a ratificação do Congresso americano. "Uns e outros enfrentam a globalização se inserindo em seus mercados de diferentes maneiras, uns têm matérias-primas mais fáceis de vender, outros não têm tantas matérias-primas e devem processar os produtos", disse García. "Para isso, precisamos irremediavelmente de acordos de comércio que nos abram novos mercados", acrescentou. No entanto, Morales, Chávez e o presidente eleito do Equador, Rafael Correa - que foi como convidado -, não têm a mesma opinião e acham que os tratados de livre-comércio prejudicam os povos. Ao final da sessão, na qual nenhum presidente mencionou o fórum social convocado paralelamente à cúpula - com exceção do paraguaio Nicanor Duarte e do próprio Morales -, o anfitrião procedeu a ratificação do documento. Chávez mostrou seu desacordo pelo fato de, segundo ele, não se ter dado passos firmes para a integração. O presidente venezuelano tinha proposto a criação de uma Secretaria-Geral e, apesar de alguns membros estarem de acordo, como Lula, protestou por a reunião ser fechada sem discutir o assunto. O presidente brasileiro interveio na polêmica, que foi divulgada pela televisão estatal, para surpresa da imprensa nacional e internacional, e sugeriu estudar a proposta em uma nova reunião no ano que vem. "Sem estrutura, como caminhamos?", perguntou o líder venezuelano, que insistiu: "Para quando vamos deixar isso?". "Se não aprovamos isto, Lula e todos companheiros, estamos cometendo uma grande falha, como líderes", disse Chávez. Lula respondeu que "não houve consenso", e disse que o que foi alcançado é uma estrutura não-permanente de um ano de funcionamento. "Era um tema importante que tínhamos que discutir hoje, mas não discutimos e a reunião terminou", disse Lula, para encerrar o assunto. Além disso, a declaração final não menciona a "Cúpula Social", organizada paralelamente por Morales e que pretendia colocar as duas reuniões ao mesmo nível. As minutas iniciais da declaração mencionavam que devia ser "especialmente" considerada "a experiência adquirida" e colocava a necessidade de garantir "o diálogo com a sociedade civil". Apenas o presidente eleito da Nicarágua, Daniel Ortega, e Chávez acompanharam Morales no encerramento do fórum social, que ocorreu durante toda a semana com seminários, espetáculos e venda de produtos, mas, principalmente, com grande presença de indígenas procedentes d toda a América do Sul. As próximas cúpulas da Comunidade Sul-Americana de Nações acontecerão em 2007 em Cartagena de Indias (Colômbia), e em 2008 no Chile.

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