Cúpula é chance para América Latina discutir fase 'complicada'

Reunião ocorre em meio em meio a divergências entre vizinhos e crise financeira

Fabricia Peixoto, BBC

16 de dezembro de 2008 | 06h48

Um grupo de 29 chefes de Estado da América Latina e do Caribe reúne-se nesta terça-feira, 16, na Bahia para uma série de discussões cujo tema central é a integração e o desenvolvimento da região. Segundo especialistas, o encontro de dois dias não poderia acontecer em momento mais apropriado: em meio a desentendimentos entre vizinhos e frente a uma grave crise financeira global.   Veja também: Para pesquisador, AL tem cúpulas demais e conteúdo de menos O Brasil, principal economia da região, tem questões diplomáticas importantes pendentes com Bolívia, Equador e Paraguai. Isso sem falar na falta de sintonia com a Argentina no que diz respeito à Rodada Doha de comércio internacional e aos tradicionais impasses do Mercosul. Os conflitos vão além da esfera brasileira. Uruguai e Argentina, por exemplo, não conseguem chegar a um acordo sobre o próximo representante da Unasul (União de Nações Sul-Americanas). O governo uruguaio chega a considerar a hipótese de abandonar o grupo caso a Argentina insista na idéia de colocar o ex-presidente Néstor Kirchner como candidato a secretário-geral do grupo. Argentina e Uruguai vivem há dois anos uma disputa em torno da construção de uma fábrica de papel e celulose à beira do rio Uruguai, limite entre os dois países. A Argentina, que é contra o projeto, levou o assunto à Corte Internacional de Haia. "Do ponto de vista político, a situação nunca esteve tão complicada na região", diz a economista Sandra Polónia Rios, da Ecostrat Consultores. Segundo ela, existe uma dicotomia entre o ambiente político e econômico na região: enquanto o comércio e os investimentos entre latinos têm crescido significativamente, a integração política passa por sérias dificuldades. Na avaliação de Sandra, a maior projeção política e econômica do Brasil fez aumentar a percepção, entre os vizinhos, de que é o Brasil quem tem de ceder. "Esses países passaram a exigir mais do Brasil e a questionar sua liderança", diz. O professor Williams Gonçalves, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) diz que a situação tende a piorar em 2009, em função da crise financeira. "Vão faltar recursos para cumprir programas sociais e, além disso, comércio e investimentos não crescerão na mesma velocidade. A tendência é de relações mais tensas", diz o professor da UFF. Gonçalves vê a Cúpula como uma oportunidade para lidar com esses percalços "de frente". "O encontro não vai resolver os problemas, mas é uma chance para os mandatários reafirmarem certos compromissos", diz. A idéia da Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc) partiu do presidente Lula e foi apresentada aos outros líderes da região em fevereiro - antes, portanto, do agravamento da crise financeira. O diretor do Departamento de Aladi (Associação Latino-americana de Integração) do Itamaraty, Paulo Roberto França, diz que não houve uma motivação pontual, mas sim de "reforçar o diálogo". Segundo ele, os 33 países representados na Cúpula estão trabalhando em uma declaração conjunta, que será divulgada durante o encontro. Entre os temas estão a crise financeira, energia e alimentos. França negou que a Cúpula seja um contraponto à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), iniciativa da qual os Estados Unidos fazem parte. "A Calc não é contraponto a nada. Nossa agenda é positiva", disse ele. Há dois meses, durante visita a Cuba, o presidente Lula disse que a Cúpula seria a primeira vez que os países da região sentariam juntos "sem a interferência de ninguém". Ainda não se sabe, porém, se a Calc se transformará em fórum permanente, com uma agenda própria. "Estamos estudando a possibilidade", diz França. Os próximos dois dias vão ser movimentados na Costa do Sauípe. Além da Calc, acontece ainda a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, além de reuniões do Grupo do Rio e da Unasul. Na reunião do Mercosul, os mandatários vão aprovar ou não a proposta de criação do Código Aduaneiro e a extinção da cobrança múltipla da Tarifa Externa Comum (TEC). Já na reunião do Grupo do Rio será formalizada a entrada de Cuba como membro permanente. Criado em 1986, o grupo tem hoje a participação de 19 países da América Latina e do Caribe. Por fim, os membros da Unasul terão de chegar a um consenso sobre o próximo secretário-geral do bloco, o que depende basicamente de um entendimento entre Uruguai e Argentina.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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