DIDA SAMPAIO|ESTADÃO
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Cunha foi do auge ao poço da carreira política em 19 meses e caiu por armadilha própria

Eleito presidente da Câmara sem o apoio de Dilma, encheu a Casa com pautas-bomba, CPIs e aprovou o pedido de impeachment; com a Lava Jato e a representação contra ele no Conselho de Ética, começou a derrocada

Igor Gadelha, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2016 | 11h16

BRASÍLIA - O deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi do auge ao poço da carreira política em menos de 19 meses. Eleito presidente da Câmara sem o apoio da então presidente da República Dilma Rousseff (PT), ele fez de tudo para atrapalhar o mandato da petista, com pautas-bomba, instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e, finalmente, o impeachment. Acabou, porém, caindo em uma armadilha elaborada por ele mesmo, para prejudicar o governo.

Até então um deputado pouco conhecido, Cunha começou a conquistar os holofotes políticos após se eleger líder do PMDB na Câmara, no início de 2013. Na época, venceu a disputa para o então deputado Sandro Mabel (GO), candidato apoiado pelo governo Dilma, que já não tinha muita simpatia pelo parlamentar fluminense. Ele substituiu o então deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que se elegeu presidente da Câmara para o biênio 2013-2014.

No comando da bancada, Cunha começou a galgar os passos para chegar à presidência da Câmara. Como líder, adotou um estilo diferente do de Henrique Alves. O deputado cassado conquistou apoio ao demonstrar que ouvia as demandas da bancada sempre que precisava tomar uma decisão. Diferente de Henrique, que, visando à eleição para presidência da Câmara, era considerado ausente e só ouvia os deputados sob ameaça de rebelião.

O primeiro embate com o governo Dilma veio na votação da Medida Provisória dos Portos. Conhecedor dos detalhes técnicos, Cunha foi algoz do governo na votação. Durante as longas sessões que vararam a madrugada, defendeu os interesses de peemedebistas descontentes com o governo e conseguiu impor duras derrotas ao Palácio do Planalto. Com a atuação na votação, ganhou admiração dentro e fora da bancada do PMDB.

A partir de então, Cunha começou a aglutinar em sua órbita um contingente numeroso de aliados do “baixo clero”, como são conhecidos deputados de menor influência política. Ao demonstrar preparo técnico, grande capacidade de trabalho e habilidade nas articulações políticas, ganhou prestígio também entre a então oposição e de bancadas importantes, como a do agronegócio e da segurança pública. Evangélico, ele já tinha a simpatia da bancada da bíblia.

Com apoio desses grupos, Cunha conseguiu se eleger presidente da Câmara em 1º fevereiro de 2015, chegando ao auge de sua carreira política. Venceu a disputa logo no primeiro turno, com 267 votos. Sua eleição significou a primeira grande derrota do segundo mandato de Dilma. Com as antigas rusgas com o peemedebista, a petista apoiou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que ficou em segundo lugar na disputa, com 136 votos. Começou ai a agonia do governo.

Cinco dias após ser eleito, veio a primeira retaliação. Atendendo pedido do PSDB, Cunha autorizou a criação da CPI da Petrobrás. Em 5 de março, o peemedebista compareceu espontaneamente para prestar depoimento no colegiado, quando negou ter contas não declaradas no exterior. O colegiado encerrou os trabalhos sem indiciar nenhum político. O único prejudicado acabou sendo Cunha. O depoimento dele na CPI acabou embasando o pedido de cassação apresentado meses depois.

As críticas ao governo aumentaram com o avanço da Operação Lava Jato. Cunha acusava o governo de orquestrar ações para constranger o Congresso Nacional, por meio de operações da Polícia Federal. A tensão culminou com o anúncio do rompimento oficial com o governo, em 17 de julho de 2015. Mesmo rompido, o peemedebista continuou negociando com o governo nos bastidores, por meio de aliados, como André Moura (PSC-SE), hoje líder do governo na Câmara.

Na época, Cunha disse que continuaria a pautar projetos, inclusive de interesse do Planalto. No entanto, as retaliações só aumentando, com a votação de projetos que aumentavam gastos públicos e a criação de mais CPIs para constranger o governo. Com enfraquecimento do governo e apoio da oposição, ele ocupava o vácuo de poder deixado por Dilma. Reuniões dia e noite aconteciam diariamente na residência oficial da Câmara. Com o prestígio, chegou a ser cotado candidato a presidência em 2018.

O primeiro grande revés só veio em agosto do ano passado. No dia 20 daquele mês, o procurador Geral da República, Rodrigo Janot, denunciou o peemedebista ao Supremo Tribunal Federal (STF). A acusação era de que ele teria recebido, entre 2006 e 2012, pelo menos US$ 5 milhões para viabilizar a contratação de navios-sonda para a Petrobras. A Corte só aceitou a denúncia em março deste ano, tornando Cunha o primeiro político réu na Lava Jato.

A denúncia animou opositores de Cunha a apresentarem, em 13 de outubro de 2015, representação contra ele no Conselho de Ética. O argumento é de que ele quebrou o decoro parlamentar, ao mentir que não tinha contas não declaradas no exterior durante depoimento na CPI da Petrobrás. Pressionado pela oposição a aceitar o pedido de impeachment de Dilma, o peemedebista passou a usar a abertura do processo contra a petista para negociar apoio pessoal.

Cunha tentou até o último instante negociar com o Planalto o apoio dos três integrantes do PT no Conselho de Ética. Sem sucesso. Horas depois de o partido oficializar que votaria contra o peemedebista, ele anunciou a abertura do impeachment de Dilma, em 2 de dezembro. Após conseguirem o que queriam e com o agravamento da situação do peemedebista na Lava Jato, partidos que outrora o apoiavam, como o PSDB, começaram a romper oficialmente com Cunha.

Sem o apoio, o deputado cassado passou a usar o cargo e a influência de presidente da Câmara para tentar se salvar. Recorreu a várias manobras para atrasar o processo no conselho. As manobras, contudo, chamaram a atenção da Justiça. Em 5 de maio deste ano, o Supremo aceitou pedido da PGR e afastou Cunha da presidência da Câmara e do exercício do mandato, sob acusação de estar usando o cargo para prejudicar as investigações da Lava Jato e o processo disciplinar na Casa.

Desde então, Cunha começou a sofrer uma série de revezes. Em 14 de junho, viu o Conselho de Ética aprovar parecer pela sua cassação, inclusive com votos de deputados que até então eram seus fieis defensores, como Wladimir Costa (SD-PA). Oito dias depois, o STF o tornou réu pela segunda vez na Lava Jato. Sob pressão da Justiça e da família, também investigada pela Operação, acabou renunciando à presidência da Câmara em 7 de julho.

Sem ter o que oferecer e sem a residência oficial, os jantares e encontros com aliados tornaram-se ainda mais escassos. Sua antiga base de sustentação minguou. Não conseguiu sequer reeleger seu sucessor no comando da Casa. Com o início da campanha para as eleições municipais e a pressão da opinião pública, que já o tinha condenado há tempos, até mesmo aliados mais fiéis se distanciaram. Isolado, viu sua cassação ser aprovada por 450 votos a 10, e nove abstenções. / COLABORARAM DAIENE CARDOSO E DANIEL CARVALHO

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