Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Cunha: é 'óbvio' que não me afastarei da Presidência da Câmara

VINICIUS NEDER E LUCIANA NUNES LEAL, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2015 | 23h13

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) descartou a possibilidade de deixar o cargo de presidente da Câmara para se defender no inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga seu possível envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras. O peemedebista afirmou que não há motivo para nenhum deputado investigado deixar cargos em comissões da Câmara e no Conselho de Ética.

Em entrevista que vai ao ar às 23h15 deste domingo, no programa "Jogo do Poder", da Rede CNT, gravada na sexta-feira, no Rio, Cunha criticou o procurador geral da República, Rodrigo Janot, por ter pedido abertura de inquérito contra 49 políticos citados durante as investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. "Óbvio que não farei isso (se afastar da presidência). Fui líder do PMDB com uma denúncia, fui julgado e absolvido, fui presidente da Comissão de Constituição e Justiça quando tive um inquérito. Todos são iguais no exercício do mandato. Todos são qualificados enquanto estiverem lá. E, finalmente, fui eleito com 267 votos (para a Presidência da Câmara)", afirmou.

Em 2013, o STF arquivou inquérito que investigava se Cunha exerceu tráfico de influência para favorecer a refinaria de Manguinhos. No ano passado, Cunha foi absolvido da acusação de uso de documento falso durante investigação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) do Rio sobre a gestão do deputado à frente na Companhia Estadual de Habitação (Cehab), entre 1999 e 2000. "Não vejo nada demais em abrir inquérito, não tenho a mínima preocupação. Tem mais de 100 parlamentares com inquérito no STF. E ninguém é culpado antes de ter sua situação avaliada e julgada pelo STF", disse Cunha.

O presidente da Câmara reclamou que Janot "igualou" os suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção ao pedir abertura de inquérito para todos. O inquérito pode resultar em denúncia, se houver indício de prática de crime, ou ser arquivado. "Em primeiro lugar, pedir abertura de inquérito contra todos já é uma coisa absurda. Se há fatos contra alguém, esses fatos culminam em denúncia (do Ministério Público ao STF). Agora, o inquérito vai igualar todo mundo", afirmou.

Cunha acusou o governo de isolar o PMDB e não levar o partido para o centro de decisões. O fato de ocupar a vice-presidência da República, com o peemedebista Michel Temer (SP), disse o deputado, não significa ter protagonismo do governo. "O cargo do vice-presidente efetivamente está no governo, mas não é poder, é expectativa de poder. (...) Qualquer governo com um mínimo de capacidade de entendimento do que é política deveria usar uma figura como o Michel Temer para ajudar na sua articulação política, porque ele tem muito mais capacidade do que qualquer outro", afirmou.

Para o deputado, as relações estavam tensas desde o ano passado. "O PMDB se ressente disso, de estar escanteado. O PMDB já vem num processo de divisão durante o processo eleitoral. A convenção do PMDB foi uma convenção na qual 42% não queriam a aliança (com o PT)", lembrou Cunha. "O governo que foi eleito, do qual o PMDB faz parte, está querendo atuar para enfraquecer o próprio PMDB", reclamou. Cunha acusou o governo de estimular a criação de um novo partido, articulada pelo ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD). A estratégia seria refundar o Partido Liberal (PL) e depois fundi-lo ao PSD. No entanto, a Câmara aprovou projeto de lei que dificulta a fusão de legendas. A proposta será analisada no Senado. "Há digitais do governo numa tentativa de criação de partido novo visando enfraquecer o próprio PMDB. A origem principal da crise está nisso. Na medida em que o governo patrocinou um partido político fictício com o objetivo claro, explícito, de cooptar parlamentares da base, incluindo parlamentares do PMDB, isso gerou uma crise política entre o PMDB e o Poder Executivo", disse Cunha.

Em ataque direto ao PT, o deputado defendeu que empresas continuem autorizadas a fazer doações a candidatos e a partidos políticos. A primeira medida de Cunha na presidência da Câmara foi criar a comissão especial para analisar a reforma política. "Eu particularmente sou favorável ao financiamento privado. (...) Esse argumento de que só serve financiamento de pessoa física, na minha opinião, é uma tese que só serve ao PT. Só quem tem pessoa física em condição de contribuir é o PT. Quando tiveram que pagar as multas do mensalão, em 24 horas apareceram contribuintes em número ilimitado. Em campanha eleitoral, isso não acontece com nenhum outro partido. Quem cobra comissão para o partido de quem tem cargo com comissão é só o PT", afirmou.

O deputado reiterou que não vê motivos para pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff e voltou a criticar o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Pepe Vargas (PT), a quem acusa de ter pressionado deputados a votarem no petista Arlindo Chinaglia (SP) na disputa pela presidência da Câmara. "Esse (Pepe Vargas) não recebo. (...) Com ele não diálogo", afirmou.

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