Andressa Anholete|AFP Photo
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Cunha diz ver 'com estranheza' nova fase da Lava Jato

Presidente da Câmara disse considerar estranho 'o contexto', 'o dia' e os 'objetivos' da nova fase da operação da PF; ele também voltou a dizer que os alvos principais das operações da polícia até agora são 'só aqueles que não são do PT'

Daiene Cardoso, Igor Gadelha e Ricardo Galhardo, O ESTADO DE S.PAULO

15 de dezembro de 2015 | 14h55

Atualizada às 15h50

BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse, nesta terça-feira, 15, "estranhar" a ação da Polícia Federal concentrada em seu partido, justamente no dia em que seria votado o parecer contra ele no Conselho de Ética e às vésperas do julgamento do rito do impeachment no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele defendeu que seu partido decida, o mais rápido possível, sobre a saída do governo.

"O PT é responsável por esse assalto que aconteceu no Brasil, o assalto da Petrobrás. Todo dia tem a roubalheira do PT sendo fotografada e de repente fazem uma operação com o PMDB", afirmou o deputado, referindo-se aos depoimentos do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, denunciado pelo Ministério Público sob acusação de obter empréstimo destinado ao PT.

Cunha disse não ver "nada de mais" na busca e apreensão em seus três endereços e disse considerar que os mandados fazem parte do processo de investigação. Ele disse não estar preocupado com a operação, que em sua avaliação é "normal" e "natural".

No entanto, ele considerou que há "algo estranho no ar" sobre o dia e o contexto da operação policial. "Isso tudo causa estranheza a todos nós", comentou. Ele reclamou que os petistas não são alvos da operação. "Não me parece que ninguém do PT, que tem o foro que eu tenho, está sujeito a algum tipo de operação", declarou o peemedebista, para em seguida ser lembrado de que o senador Delcídio Amaral (PT-MS) foi preso por obstruir as investigação da Operação Lava Jato.

Para Cunha, tentam jogar sobre ele o "roubo que foi feito pelo PT". "Só é sujeito a operações os que não são do PT", reclamou. Ele informou que continuará "firme" em sua posição e que não pretende renunciar ao cargo. "Não tem a menor hipótese, de jeito nenhum", insistiu o deputado, afirmando que tem a consciência tranquila e que é "absolutamente inocente".

Processo disciplinar. Criticando os membros do Conselho de Ética, que em sua opinião não levam com seriedade seu processo disciplinar, Cunha acusou o presidente do colegiado, José Carlos Araújo (PSD-BA), de ser "dependente" do ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner. De acordo com ele, a sessão de hoje no colegiado que aprovou a admissibilidade de seu processo por quebra de decoro parlamentar é "obviamente" nula e anunciou que cogita recorrer ao STF contra a decisão desta manhã.

O peemedebista lembrou que é desafeto declarado do governo e, para ele, o Executivo atuou para acelerar seu processo no Conselho. Ele acredita que o Palácio do Planalto age agora com vingança após a abertura do processo de impeachment. Cunha cobrou da imprensa que questione o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sobre sua suposta visita de madrugada a Curitiba, sede das investigações da Lava Jato. "Me tornei mais desafeto ainda na medida em que dei curso ao processo de impeachment. Todos sabem disso. Nada mais natural que eles busquem o seu revanchismo", protestou. 

Eduardo Cunha reuniu aliados em almoço no início da tarde na residência oficial da Câmara. Segundo participantes, o deputado afirmou que a ação da Polícia Federal na mteve por objetivo desviar o foco do processo de impeachment. Ele também teria afirmado que a ação da polícia no Rio de Janeiro foi desrespeitosa. Já em Brasília, Cunha contou, de acordo com esses parlamentares, que já estava acordado quando a PF chegou e que ele mesmo abriu a porta para os agentes. Ainda de acordo com aliados, a mulher de Cunha, a jornalista Cláudia Cruz, também estava em casa, em Brasília, no momento da operação.

Planalto. Nos bastidores, o Palácio do Planalto avalia que a nova fase da Operação Lava Jato agrava ainda mais o delicado quadro político. Auxiliares da presidente Dilma Rousseff  estão apreensivos e temem uma reação “agressiva” de Cunha.

Segundo integrantes do núcleo político do governo, Cunha age com imprevisibilidade e já demonstrou que costuma reagir com agressividade às situações nas quais fica acuado. O exemplo mais evidente foi aceitar a abertura do processo de impeachment contra Dilma depois que o PT retirou apoio ao peemedebista no Conselho de Ética da Câmara. Embora avaliem que o arsenal de ferramentas de retaliação de Cunha diminuiu depois do pedido de impeachment, auxiliares da presidente acreditam que o peemedebista ainda tem cartas na manga contra o governo.

O governo prevê ainda um acirramento nas disputas internas pelo controle do PMDB devido ao fato de o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, aliado do governo e alvo de inquéritos da Lava Jato, ter escapado ileso da operação desta terça-feira e, com isso, ganhar fôlego na batalha pelo controle do partido.

Por outro lado, integrantes da cúpula do PT destacam que entre os alvos estão aliados importantes do governo no PMDB como Lobão, ligado ao ex-presidente José Sarney (PMDB-AP).

Além disso, o Planalto avalia que a amplitude da operação, que cumpriu mandatos contra 53 pessoas, entre eles dois ministros e um senador aliado (Edison Lobão, PMDB-MA), ajuda a difundir a ideia de corrupção generalizada tanto no governo quanto no Legislativo, o que pode dar combustível a novas manifestações pelo impeachment.

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