DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Acuado por denúncia de delator, Cunha rompe com Dilma e abre CPIs

Investigado pela Lava Jato e sob suspeita de ter recebido US$ 5 milhões de propina, presidente da Câmara anuncia ruptura com o governo, solicita a deputado aliado que reescreva pedido de impeachment de Dilma e cria comissões de investigação

Daniel Carvalho e Victor Martins, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2015 | 17h10

Atualizado às 23h00

Brasília - Nem bem oficializou seu rompimento com o governo, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deu início às retaliações ao Palácio do Planalto, acusado por ele de querer prejudicá-lo com as investigações da Operação Lava Jato da Polícia Federal.

No fim desta manhã, Cunha anunciou que passava à condição de oposição ao Planalto. Foi a primeira resposta à denúncia de ter cobrado propina de US$ 5 milhões, feita pelo lobista Julio Camargo. A segunda veio na forma do anúncio de duas novas CPIs para tentar impor mais desgaste ao governo: criou a CPI do BNDES e autorizou a dos Fundos de Pensão.

O deputado ainda encaminhou ofício ao deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e a outros dez “cidadãos” para que refizessem em dez dias, por erro de formatação, seus pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Nesta sexta, via redes sociais, Cunha informou que vai receber “em 30 dias parecer jurídico sobre pedido de impeachment” de Dilma.

A solicitação foi feita pelo Movimento Brasil Livre (MBL). No Facebook o deputado disse que a avaliação das contas da presidente “pode custar” seu mandato. “Vou incluir mais uma justificativa no meu requerimento. Semana que vem, apresento ele atualizado”, disse Bolsonaro. 

Aliados do presidente da Câmara esperam a rejeição das contas de 2014 de Dilma, a partir de recomendação do Tribunal de Contas da União, o que pode acabar em impeachment por crime de responsabilidade. Pessoas próximas a Cunha já dão como certa a reprovação das contas. Na quinta-feira passada, o presidente da Câmara já havia dito que o julgamento no Congresso seria político. 

As retaliações, no entanto, não devem parar por aí. Dilma também deve enfrentar ainda mais dificuldades para aprovar projetos de interesse do governo na Câmara. Na volta do recesso, o governo deve ver rejeitados projetos prioritários, como a reforma do ICMS e a repatriação de recursos no exterior, segundo aliados políticos. 

O pacote de retaliações ao governo deve se estender à CPI da Petrobrás, sob controle de um deputado de sua “tropa de choque”, Hugo Motta (PMDB-PB). Aliados de Cunha querem aprovar a convocação do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Aguardam a divulgação oficial da delação do dono da UTC, Ricardo Pessoa, que afirmou que o ministro recebeu R$ 250 mil para sua campanha ao governo de São Paulo em 2010 e que o dinheiro teria origem no esquema na Petrobrás. Mercadante nega irregularidades. 

Ao longo do dia, o governo tentou amenizar a virulência das declarações de Cunha nos pronunciamentos oficiais. Nos bastidores, porém, não escondeu a tensão com a declaração de guerra feita pelo peemedebista. Petistas apontaram sinais de enfraquecimento de Cunha como a ausência de aliados, como os líderes do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), e do DEM, Mendonça Filho (PE), no anúncio do rompimento com o governo. 

Apenas cinco parlamentares do “baixo clero” acompanhavam Cunha: André Moura (PSC-SE), Rogério Peninha (PMDB-SC), Hildo Rocha (PMDB-MA), Édio Lopes (PMDB-RR) e Roney Nemer (PMDB-DF). 

A oposição entende que o rompimento agrava a crise institucional. “A guerra fria virou guerra total. Haverá destruição de parte a parte”, disse um líder oposicionista que preferiu o anonimato. Para eles, o vice-líder do governo, Sílvio Costa (PSC-PE), tentou “apagar incêndio jogando gasolina” ao defender o afastamento de Cunha da presidência da Casa. O governo desautorizou Costa. 

Partido. O PMDB deu sinais de divisão. Para alguns, Cunha furou o sinal ao declarar o rompimento e deu um tiro no pé ao criticar o juiz Sérgio Moro, que comanda a Lava Jato, tido como “paladino da ética”. Para outros, o deputado reagiu na medida e no momento certos, dividindo o noticiário com as acusações contra ele. No PMDB, há quem argumente que, ao ir para o confronto direto com Dilma e o PT, Cunha mantém apoio da opinião pública, insatisfeita com a presidente e seu partido. 

Também há divisão na bancada quanto ao rompimento. Há quem diga que Cunha terá a maioria a seu favor, já que o governo ainda não liberou cargos e emendas para os parlamentares. No entanto, o temor de desgaste pode isolar o parlamentar, sujeito a ser enfraquecido por novas acusações e pela formalização da denúncia ao Supremo Tribunal Federal. 

Em nota, o PMDB ressaltou que o rompimento é uma posição pessoal de Cunha. Isso também gerou interpretações diversas. Para alguns, o comunicado demonstra isolamento do presidente da Câmara. Para outros, foi apenas uma nota burocrática, já que o presidente da legenda, Michel Temer, é vice-presidente da República e articulador político do governo. 

Cunha quer que Temer deixe a articulação política tão logo o governo conclua o ajuste fiscal. O vice-presidente estará nos EUA na segunda-feira e na terça-feira da próxima semana.

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