Cunha acusa 'cúpula da PF' de armação

Candidato do PMDB à presidência da Câmara apresenta áudio que segundo ele teria sido forjado para incriminá-lo na Operação Lava Jato

DAINE CARDOSO , ANDREZA MATAIS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2015 | 02h03

Candidato do PMDB à presidência da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ) acusou ontem a "cúpula da Polícia Federal" de montar uma gravação para tentar incriminá-lo nas investigações da Operação Lava Jato. O peemedebista distribuiu para a imprensa cópias de uma gravação que traz a conversa entre duas pessoas na qual um dos interlocutores ameaça contar o que sabe caso o deputado o abandone.

O peemedebista disse não reconhecer as vozes do áudio. Sugeriu, porém, que um dos interlocutores - o que ameaça contar o que sabe - tenta se passar por Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca, acusado de trabalhar para o doleiro Alberto Youssef como distribuidor de dinheiro desviado da Petrobrás.

Policial federal afastado, careca afirmou, em depoimento aos investigadores da Lava Jato, que a mando de Youssef entregou dinheiro num endereço que seria de Cunha. Numa retificação do depoimento, recuou.

Quando o caso foi revelado, o deputado se disse vítima de "alopragem" de interessados em constranger sua candidatura.

Investigadores da PF consideraram, num primeiro momento, a gravação uma grande fraude sem qualquer ligação com o que se investiga na Lava Jato. A voz também não seria mesmo a do policial acusado. Uma perícia, contudo, será realizada e Cunha chamado a prestar depoimento. A gravação não tem ruídos, como se tivesse sido feita em estúdio. Há pausas no meio dos diálogos e os interlocutores conversam sem interromper um ao outro.

Cunha afirma que teve acesso à gravação após ser procurado no sábado passado por um homem que se identificou como integrante da Polícia Federal. O encontro ocorreu no escritório do peemedebista no Rio. Esse homem entregou o áudio a Cunha dizendo que ele estava prestes a ser anexado às investigações da Lava Jato.

Segundo o peemedebista, foi essa pessoa quem disse que a cúpula da Polícia Federal estaria orquestrando uma "montagem" para envolvê-lo em denúncias e assim prejudicar sua campanha ao comando da Câmara uma vez que o governo apoia o petista Arlindo Chinaglia (SP) na disputa - a eleição entre os deputados está marcada para o dia 1.º de fevereiro.

O deputado não citou os nomes de quem na PF teria interesse de prejudicá-lo. Esse homem, ainda segundo Cunha, citou os nomes dos integrantes da "cúpula" que estariam envolvidos na suposta fraude. O deputado, porém, não divulgou esses nomes.

Conversa. Na gravação, um dos homens diz que Cunha está "se dando bem" e insinua que o peemedebista ganhará a presidência da Câmara. Ele diz que está sob pressão e ameaça contar o que sabe caso não seja ajudado. "Se eu ficar abandonado, vou jogar merda no ventilador, hein? Não vou segurar sozinho não. Tá todo mundo enchendo a burra de dinheiro e eu estou abandonado e duro, sem grana, só segurando a pica", protesta. E complementa: "Tu vai levar meu apelo a eles. Porque eu tô nervoso, tô ficando preocupado, o bicho tá pegando."

O segundo homem, que se mostra como alguém próximo de Cunha, pede paciência e diz que o dinheiro chegará às suas mãos.

O deputado disse que expôs publicamente a situação porque tem interesse em investigá-la a fundo. "Toda semana tem um tipo de constrangimento", afirmou Cunha.

Em nota distribuída à noite, a Associação Nacional dos Delegados da PF repudiou a acusação do peemedebista. Os delegados classificam a declaração do parlamentar como uma "grosseira tentativa de envolver uma série e respeitada instituição em disputas político-partidiárias."

A Secretaria de Imprensa do Palácio do Planalto afirmou que a presidente Dilma Rousseff não tomou conhecimento das denúncias feitas por Cunha. De acordo com o órgão, Dilma "não deu qualquer orientação" aos ministros para que não alimentassem a polêmica com o peemedebista.

Cargos. Cunha também acusou ontem o Palácio do Planalto de interferir na disputa pela presidência da Câmara. Sem citar exemplos concretos, afirmou que deputados disseram que foram procurados pelo governo com a promessa de que seriam contemplados com cargos no segundo escalão caso abandonassem o candidato do PMDB. "Não dá para ter interferência desta maneira", afirmou o deputado. / COLABORARAM VERA ROSA, TÂNIA MONTEIRO, FAUSTO MACEDO E MATEUS COUTINHO

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