Cultura de resistência

Produção artística que enfrentou a ditadura e nem a censura conseguiu domar já estava em gestação antes do golpe

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

A onda artística que veio se quebrar contra a muralha do AI-5 já estava em formação havia muitos anos. Mesmo antes de 1964, surgiram núcleos de renovação estética, como a bossa nova, o Cinema Novo, os Teatros de Arena e Oficina, os Centros Populares de Cultura, a poesia concreta.Após o golpe, o poder mostrou-se incapaz de controlar essas manifestações. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, foram concebidos ainda em 1963, no governo Goulart, mas desenvolveram suas carreiras no ano seguinte. Morte e Vida Severina, peça baseada no poema de João Cabral e musicada por Chico Buarque, era assistida no Tuca, em São Paulo, como cerimônia de indignação cívica. O contraponto carioca era o show Opinião, levando a platéia a um transe contestador. No teatro, o transe dava-se no Arena, com a peça Arena conta Zumbi, de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri. As canções de Chico e de Geraldo Vandré embalavam toda uma geração que pedia reformas sociais. Como o enfrentamento entre sociedade e governo acirrou-se em 1967 e 1968, tal fato não poderia deixar de refletir-se nas artes. Em 67, aparecia um filme genial e desesperado, Terra em Transe, de Glauber. Os festivais ferviam, e músicas como Disparada, de Théo de Barros e Vandré, diziam o que parte significativa da sociedade, na oposição, queria ouvir. No teatro, a releitura radical de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, fazia de José Celso Martinez um dos principais nomes da época. Na literatura, Quarup, de Antonio Callado, discutia a opção armada na contestação ao regime. E, nas artes plásticas, Hélio Oiticica inaugurava Tropicália, "ambiente instalação" que iria ter grande influência no desenvolvimento da música popular. Inspirou o Tropicalismo, movimento contestador em termos comportamentais, que rompia com o discurso estético (e político) da esquerda tradicional, mas incomodava profundamente a direita. Depois do AI-5 a censura se torna absoluta e a perseguição ganha ares de "legalidade". Muitos dos artistas mais incisivos seguem para o exílio, como Glauber, Caetano, Gil, Chico, Vandré, Zé Celso, entre outros. O desafio passou a ser "driblar" a censura, passando mensagens cifradas que poderiam ser compreendidas pelo destinatário avisado. No sambão Aquele Abraço, Gil falava do exílio. Em Alfômega, murmurava, entre os dentes, o nome de Carlos Marighella. Mas o hino da resistência veio mesmo com Chico e Apesar de Você, cujos versos "Apesar de você/Amanhã há de ser outro dia" falavam da inevitável transitoriedade histórica da ditadura. O cinema valeu-se de um barroquismo alegórico para passar pela censura. São os casos de Azyllo Muito Louco, adaptação de Nelson Pereira dos Santos para O Alienista, de Machado de Assis, Pindorama, de Arnaldo Jabor, e tantos outros. Alguns cineastas encontraram meios diferentes para evitar a censura. Joaquim Pedro, em Os Inconfidentes, usa o texto dos Autos da Devassa da Inconfidência para, de esguelha, refletir sobre o momento político. São Bernardo, de Leon Hirszman, recorre a Graciliano Ramos para conduzir sua reflexão anticapitalista. O cinema dito "marginal" gera um grito de desespero, criativo porém politicamente inarticulado, e busca no deliberado mau gosto expressão para o momento de sufoco social - casos de Bang Bang, de Andrea Tonacci, e Matou a Família e Foi ao Cinema, de Julio Bressane. No teatro, a censura continuava atenta e uma peça como Calabar, de Chico e Ruy Guerra, esbarrou em seu veto. A chegada de Geisel ao poder dá início à política de distensão. Com a criação da Embrafilme, remanescentes do Cinema Novo voltaram-se para a produção de filmes de sucesso. São da década de 70 os maiores êxitos de público do cinema brasileiro, como Dona Flor e seus Dois Maridos, Xica da Silva e A Dama do Lotação. Muitos interpretam essa domesticação do cinema, sob a guarida do Estado, como mais eficaz que qualquer lei de censura. O fato de a produção artística ter se mantido, ainda que precariamente, na década de 70, e produzido algumas grandes obras pode ser considerado quase um milagre. A música de Milton Nascimento, Caetano e Chico, livros como Reflexos do Baile, de Callado, peças como Gracias Señor, no Oficina, eram atos de desobediência civil. Mas já não atingiam a sociedade como antes, e nem poderiam fazê-lo, pois se vivia um tempo de medo antes que a abertura se completasse. Acreditava-se que, após o AI-5, jorrariam obras deixadas no fundo da gaveta. Engano. Com notáveis exceções, a década de 1980 foi das mais medíocres no plano artístico, embora embalada pelas Diretas-Já. Algo se quebrara ao longo da fase feroz da ditadura. A atividade artística nunca mais seria a mesma dos anos 60, mesmo porque o tempo já era outro. No silêncio da história, a presença da indústria cultural havia se intensificado, e a "arte para o mercado" surgia como a fórmula mais eficaz para a esterilização da arte contestadora e radical.

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