Cuba é o único país que pode dizer "não" aos EUA, diz filha de Che

Ela carrega um sobrenome que evoca reminiscências de um passado impregnado de romantismo e de furor libertário. Aleyda Guevara, ou Aleydita, como é conhecida em Cuba, é filha de um casal de revolucionários: Ernesto Che Guevara, executado no dia 9 de outubro de 1967, na selva da Bolívia, onde perseguia o sonho quase solitário e delirante de um levante continental; e Aleyda March, de quem Che se apaixonou quando comandava a guerrilha cubana, na idílica Sierra Maestra, e com quem se casou em junho de 1959, seis meses depois do triunfo, deixando sua primeira mulher, a peruana Hilda, com quem já tinha uma filha. O convívio com o pai foi curto. Quando chegou a notícia da morte de Che - que se chamava assim porque, como muitos argentinos e gaúchos, tinha mania de pontuar as frases com essa interjeição - Aleydita tinha cinco anos de idade. Mal vira o pai que vivia para cima e para baixo. É a Fidel, o grande companheiro de Che, que Aleyda se acostumou a chamar de "papá". Numa entrevista conturbada, cercada de uma claque de admiradores embevecidos com a filha do grande ídolo desse Fórum Social Mundial, que se enraivecia com as perguntas e aplaudia animadamente a cada resposta, Aleyda, alegre e enfática, sem perder a esportiva, falou da herança do pai e de seu amor pela Revolução Cubana, da qual se define como um produto. "Meu pai dizia que nós, revolucionários, temos que ser românticos", diz ela, ecoando uma frase que até hoje freqüenta cartazes e camisetas da juventude sonhadora: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás." Agência Estado - Como é ser a filha de Che Guevara? Aleyda Guevara - Tem sido um grande privilégio para mim como ser humano conhecer sua vida, ter uma mãe como a que tenho, que me tem dado tanta ternura, tanto amor, que me ensinou a respeitar os seres humanos, acima de tudo. É muito importante para qualquer pessoa. As pessoas, como você, vêm conversar comigo, por ser a filha de Che, e tenho a oportunidade de lhes dizer as coisas que estamos vivendo. Vivo com dificuldades, como todos em Cuba. Somos um país bloqueado. Economicamente, somos chamados de Terceiro Mundo. Temos tremendas dificuldades econômicas, todo mundo as conhece. Mas se vive com muita alegria e dignidade em Cuba, porque se está defendendo um projeto de um povo de viver de uma maneira diferente, entende? Ensinam valores muito lindos ao povo. Fui médica internacional um ano na Nicarágua e dois anos em Angola. E me sinto a mulher mais completa do mundo por tê-lo feito. Pagar um pouco a dívida que temos com a África. Somos todos filhos também de africanos. E a África é um dever para Cuba. Estar na América Latina é um dever para os cubanos, porque (o líder independentista cubano José) Martí dizia que, do Rio Bravo até a Patagônia, todos somos uma mesma nação. Apesar de sermos uma ilhota, nos acostumamos a isso: a sentir o samba, o tango, a cultura geral. A luta dos povos indígenas em nosso continente, pela dignidade, é questão de Cuba, também, somos parte dessa terra. Cada vez que vou a um lugar e as pessoas se interessam pelo que diz a filha de Che, sempre esclareço que quem está falando é uma mulher formada por uma revolução socialista, que a defende até as últimas conseqüências, porque quero para minhas filhas o mesmo que tive: a mesma dignidade, a mesma alegria, a mesma possibilidade de dizer o que penso sem nenhum tipo de temor. Não creio em Deus, mas creio no ser humano. Meu pai sempre dizia que nós, os verdadeiros revolucionários, temos que ser sempre muito românticos, porque, se não, querido, como, demônios, você enfrenta esse mundo? Tem que ter uma grande dose de amor e de ternura para tornar seus sonhos realidade. Agência Estado - Que lembranças a sra. tem de seu pai? Aleyda - As lembranças são muito poucas. Sempre perguntam a mesma coisa e se vai acabando a magia. Então, fiz um documentário no ano passado, em Cuba, e chega: não falo mais disso. Se quiserem, assistam. Agência Estado - A sra. não gostaria de poder eleger um presidente democraticamente? Aleyda - Mas nós acabamos de eleger... Agência Estado - Mas é sempre o mesmo... Aleyda - Não. A cada cinco anos, Cuba tem eleições provinciais e nacionais. Acabamos de realizá-las, e 97,6% da população foi às urnas. Havia duas cédulas: uma provincial, com quatro candidatos, e outra nacional, com três. Você podia votar para cada uma dessas pessoas ou por nenhuma ou por todas. Sabe quantos votaram por todos? 91% da população. De maneira que temos confiança absoluta nas pessoas que elegemos. Porque não é um partido que as lança. Elas são lançadas da base. E são, depois, analisadas pelas assembléias municipais, que decidem se vão ou não à candidatura. Eu, por exemplo, fui lançada a deputada. Não saí porque há pessoas em Cuba que têm melhores condições que eu para serem deputadas. Perfeito! Não tem problema. Meu povo tem confiança em mim. Para mim, isso é fundamental. Agência Estado - As mudanças econômicas em Cuba indicam que o socialismo está acabando? Aleyda - Mas, homem, o que você está dizendo? Você imagina o que é um país bloqueado pelos Estados Unidos? Vou lhe dar um exemplo fácil do que é o bloqueio: sou pediatra. Estava com uma menina de cinco meses com sangramento. O medicamento para esse caso, infelizmente, era de patente americana. De cada dez medicamentos no mundo, oito são dos EUA. Nós tínhamos o dinheiro para comprá-lo. Você acha que alguém quis vendê-lo? Agora, me diga: uma menina de cinco meses tem ideologia, pode ser condenada por morar num país? Apesar desse bloqueio, e graças à sociedade socialista que temos, os recursos que nos chegam às mãos se convertem em remédios, em educação e bem-estar social. Apesar de todos os problemas econômicos que tem esse socialismo que você diz estar acabando, construímos uma escola de medicina latino-americana gratuita, para que todos os estudantes que no país deles não possam ser médicos, possam ir a Cuba. Eu estava na Espanha uns dias antes do golpe contra o presidente Hugo Chávez (em abril) e fui recebida por um homem do Partido Socialista, que se meteu a falar contra Chávez. Perguntei se ele conhecia a Venezuela. Ele disse que não, mas que a imprensa estava dizendo que Chávez era um tirano. Dois dias depois, golpe de Estado. O que estava fazendo a imprensa espanhola? Preparando a opinião pública para o golpe, portanto, sabia de antemão. Agência Estado - Talvez a imprensa espanhola estivesse simplesmente noticiando os fatos e a sra. não esteja acostumada com imprensa livre... Aleyda - Olha: estou mais do que acostumada com essa imprensa livre, porque "livre" significa que um homem seja capaz de apresentar seus problemas, e obtenha resposta. Tenho uma amiga na Espanha que diz que lá há muita liberdade de expressão. É verdade, ela pode dizer o que quiser, mas, quem vai levá-la em conta? Ou você se esquece de que houve um plebiscito na Espanha para que não entrasse na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)? E o que aconteceu? Entraram. Então, para que o plebiscito? Dei uma entrevista na Espanha, e a jornalista, com muita vergonha, porque era uma boa profissional, me disse: "Sinto muito, mas não posso publicar isso, porque dizem que não se pode dizer tal coisa..." Mas, homem, o que é isso? Agência Estado - Mas essa entrevista vai sair num jornal brasileiro, enquanto que se, em Cuba, alguém falasse mal de Fidel Castro, não sairia na imprensa... Aleyda - Acontece que em Cuba ninguém, ou muito pouca gente, vai falar mal de Fidel Castro, porque elegemos esse homem muitas vezes, sabe por quê? Porque dedicou toda sua vida a esse povo que, antes, tinha 33% de analfabetismo. Agora, não há analfabetos. A taxa de mortalidade infantil era de 60 por mil nascidos vivos. Agora, é de 6,4. A ilhota de Cuba, que era um prostíbulo dos Estados Unidos, hoje é conhecida no mundo todo como o único país que neste momento tem força, liberdade e soberania para dizer "não" aos Estados Unidos, e manter o "não" até as últimas conseqüências.

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