CRM adverte médico por morte de Florestan Fernandes

Numa sessão que durou mais de seis horas, o Conselho Regional de Medicina (CRM) de São Paulo decidiu, no sábado, aplicar uma advertência confidencial, em aviso reservado, ao médico Silvano Raia, de 72 anos. O julgamento refere-se ao processo disciplinar que investiga a morte do sociólogo Florestan Fernandes, aos 75 anos, após um transplante de fígado realizado pela equipe de Raia, em 1995.A pena é a mais branda estipulada pelo CRM, que em último caso pode determinar a cassação de um médico. Para seis dos dez conselheiros, Raia infringiu dois artigos do Código de Ética Médica, o 4.º - "ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ética da medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão" - e o 34.º - "atribuir insucessos a terceiros e a circunstâncias ocasionais, exceto nos casos em que isso possa ser devidamente comprovado". Já o médico Sérgio Mies, assistente de Raia, foi absolvido por unanimidade.De acordo com o presidente do Conselho Regional de Medicina, Gabriel Hushi, as sentenças do órgão só são consideradas definitivas após um prazo de 30 dias, cabendo recurso de ambas as partes. Ele não quis comentar a pena estipulada. Admitiu, no entanto, que mesmo a punição mais branda causa abalo na carreira de um profissional. "É sempre traumático e doloroso para o médico ter seu procedimento questionado", disse.Silvano Raia ainda não decidiu se vai recorrer da decisão do CRM. O médico garante que o transplante era a única alternativa no caso de Florestan Fernandes e se diz vítima de conspiração de grupos da Universidade de São Paulo, rivais da Unidade do Fígado, na época comandada por ele - hoje, Raia dirige, juntamente com Sérgio Mies, a Unidade de Transplante do Fígado do Hospital Albert Einstein. "Envenenaram a família do sociológo contra mim. Chegaram a insinuar que o fato de o doador ter sido vítima de sífilis teria prejudicado o transplante, quando sabem que isso é tecnicamente impossível."Já o jornalista Florestan Fernandes Júnior, filho do sociólogo, que solicitou a apuração do CRM, está convencido de que a conduta de Raia não foi a ideal. "Houve uma série de erros. O principal deles foi a indicação do transplante. Era evidente que meu pai não tinha condições físicas de passar por isso", disse. Ele também critica a divergência de laudos sobre a morte. "Primeiro falaram em falência múltipla de órgãos, depois em embolia gasosa e chegaram a liberar o corpo sem autópsia."

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