Críticos 'veem Brasil com olhos pequenos', afirma Amorim

Num balanço exclusivo de sua gestão, o chanceler brasileiro disse que o Brasil tem hoje conhecimento íntimo dos problemas mundiais.

Guila Flint, BBC

27 Julho 2010 | 12h57

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que os críticos da política externa brasileira veem o Brasil com "olhos pequenos" e "não conseguem compreender" que o país passou a ter "grandeza" no cenário internacional e, em consequência, está sendo chamado a desempenhar um papel ativo nas questões mundiais.

Em seu último dia de visita a Israel, o chanceler concedeu uma entrevista exclusiva à BBC Brasil na qual fez um balanço de seus oito anos de trabalho à frente do Itamaraty e rebateu diversas críticas à política externa brasileira.

Amorim também analisou o papel do Brasil no Oriente Médio e na América Latina e falou sobre sua visão do futuro da posição brasileira no cenário mundial.

O ministro dividiu os críticos à política externa brasileira em dois grupos principais - as grandes potências, que segundo ele, querem manter o monopólio do poder, e críticos dentro do país que não compreendem que "o Brasil é um país grande".

"Os críticos de fora do Brasil também não querem a participação (em questões da paz e segurança mundiais) da Índia, da África do Sul ou da Turquia, pois querem preservar o monopólio do poder que têm", afirmou.

"Já no Brasil (os críticos) são pessoas que não conseguem compreender que - sem nenhuma megalomania, sem nenhum exagero - o Brasil tem um tamanho e uma grandeza no cenário internacional."

Venezuela x Colômbia

Amorim rejeitou as críticas de que a participação crescente do Brasil nas questões mundiais, especialmente no Oriente Médio, se dá em detrimento dos esforços do país para ajudar a resolver os problemas da América Latina.

"Na questão da crise entre a Venezuela e a Colômbia, a primeira coisa que o presidente Lula fez foi telefonar para o presidente Chávez, e também entramos em contato com os ministros colombianos. Uma coisa não interfere na outra, pelo contrário, o prestígio internacional do Brasil nos ajuda também a trabalhar na região", disse.

O ministro disse que a América do Sul tem mecanismos para resolver crises como a que está ocorrendo entre a Venezuela e a Colômbia e lembrou que na próxima quinta-feira, dia 29, os ministros da Unasul vão se reunir para discutir a questão.

"A tarefa imediata é administrar a situação até a chegada do novo governo colombiano e então procurar uma solução mais permanente."

Oriente Médio

Amorim disse que os esforços que o Brasil dedicou, durante os últimos oito anos, às questões do Oriente Médio "valeram a pena".

"Política externa não é uma coisa que se faz com um horizonte de um ou dois mandatos, mas nós iniciamos um processo e temos hoje uma relação de intimidade e de conhecimento dos problemas que não sonhávamos ter dez anos atrás."

O chanceler disse que, cada vez que vai ao Oriente Médio, sente que há "um interesse na participação do Brasil, sinto isso da parte dos palestinos, dos israelenses e dos iranianos, e de outros - egípcios, sírios...."

"Vale a pena o esforço, porque aqui (no Oriente Médio) estão concentrados os problemas principais da paz mundial, e o Brasil é um grande país e todos nós temos que pagar um preço pela manutenção da paz. "

"A paz é como a liberdade, é como ar, você só sente como ela é importante quando ela não existe", disse Amorim.

E completou: "Os países que querem ter uma participação têm que pagar algo por isso e é melhor que seja em diplomacia do que em outras formas".

Irã

O ministro afirmou que o Brasil vai respeitar as sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irã, embora tenha se oposto a elas, "pois respeita a lei internacional".

No entanto, segundo Amorim, o Brasil não tem obrigação de se alinhar a favor das sanções unilaterais decretadas pelos países europeus ou pelos Estados Unidos.

"Continuamos achando que o melhor caminho para resolver a questão do projeto nuclear iraniano é por meio do diálogo e não do isolamento".

O ministro afirmou que se houver uma guerra com o Irã as consequências poderão ser "absolutamente trágicas".

"Mas prefiro apostar na paz e temos que continuar trabalhando para evitar que isso aconteça", disse.

Eleições

Diante da aproximação das eleições no Brasil, Amorim afirmou que considera que mesmo na ausência do presidente Lula, o papel do Brasil no cenário internacional continuará crescendo.

"Pelé só teve um, mas o Brasil continuou a ser campeão mundial", comparou Amorim.

De acordo com a avaliação do ministro, daqui a dez anos ninguém terá duvidas sobre o papel importante e central do Brasil nas relações internacionais, inclusive nas questões da paz e segurança mundiais.

"O Brasil já tem um papel importante nas questões financeiras, nas relações comerciais e na questão do clima. A maior resistência em relação à participação do Brasil e de outros países em desenvolvimento é na parte de paz e segurança, pois os cinco membros do Conselho de Segurança são também potências nucleares que querem barganhar entre elas as condições da paz no mundo".

"Mas isso vai mudar, porque o mundo não pode continuar tendo, no seu processo decisório, os mesmos paises de 1945."

"Esses oito anos em que servi no Ministério foram muito privilegiados pois foram um momento de transformação do mundo e do Brasil", resumiu.

Sobre seus planos futuros, Amorim disse que no momento tem dois convites, "um é real, que é do reitor da Universidade do Rio de Janeiro, para ajudar na universidade, e o outro... eu gostaria de crer que tenho um convite... que é dos meus netos, para passar mais tempo com eles". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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