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Críticos de Bolsonaro e Olavo são tratados como inimigos

Jornalistas, intelectuais de direita e até membros do governo já sofreram ataques que pretendiam destruir suas reputações

José Fucs, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2019 | 22h00

Na mídia tradicional, alvo preferencial dos ataques do presidente Jair Bolsonaro, de seu “guru” Olavo de Carvalho e de seus apoiadores, inúmeros jornalistas já se tornaram objeto da ira dos “jacobinos”. Segundo um levantamento feito pelo jornalista Marlos Ápyus, ele próprio atacado pelas hordas bolsonaristas e olavistas, surgiram diversos perfis falsos ridicularizando profissionais como Andrea Sadi, do Grupo Globo, e Reinaldo Azevedo, da Rede TV e do UOL – um ex-queridinho dos “jacobinos”, por suas críticas contundentes ao PT, que depois rompeu com o que chama de “direita xucra”. A jornalista Miriam Leitão, também do Grupo Globo, virou vidraça depois de dizer na campanha que Bolsonaro representava um “risco à democracia”. 

Até jornalistas mais identificados com a direita, como Felipe Moura Brasil, diretor de Jornalismo da rádio Jovem Pan e organizador do livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, com textos de Olavo, caiu em desgraça por criticar Bolsonaro, como acontecia nos antigos regimes da Cortina de Ferro, quando integrantes dos partidos comunistas criticavam seus líderes. 

“Patrulha mentirosa”. Na semana passada, a rede bolsonarista e olavista disseminou a versão de que Moura Brasil tornara-se diretor da Pan por ter apoiado Gustavo Bebianno, ex-secretário-geral da Presidência, no episódio da sua queda. “A acusação contra mim é apenas um exemplo ilustrativo desta patrulha mentirosa que a militância petista também fazia”, escreveu Moura Brasil em sua coluna na última edição da revista digital Crusoé.

Fora da mídia, quem entra na mira dos grupos mais radicais ligados a Olavo e a Bolsonaro são intelectuais da própria direita que se arriscam a criticar os dois, ainda que em questões pontuais. Fazem parte da galeria os filósofos Francisco Razzo, autor dos livros Contra o aborto e A imaginação totalitária; Martim Vasques da Cunha, autor de Crise e utopia e A poeira da glória; e o economista Rodrigo Constantino, autor de Privatize já, Esquerda caviar e Contra a maré vermelha.

Razzo, chamado de “estudante universitário” por Olavo, entrou para o index do escritor ao afirmar certa vez que ele não estava entre os autores mais influentes em sua formação e era só mais um entre os vários nomes engajados na batalha para formação da direita no País. Martim Vasques, ex-aluno de Olavo, batizado por ele, com toda a sua “sutileza”, de Martim Vaca, foi defenestrado há tempos pelo ex-mestre. Voltou a ser atacado na semana passada, por causa de um artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, intitulado O mínimo que você precisa saber sobre o pensamento de Olavo de Carvalho. No artigo, que levou Olavo a publicar meia dúzia de posts nas redes sobre o assunto, Vasques cometeu a “heresia” de criticar suas ideias em linguagem acadêmica, expondo suas inconsistências e contradições teóricas. 

No caso de Constantino, chamado de “Coconstantino” por Olavo, os conflitos também não são de hoje e decorrem das críticas públicas feitas a Bolsonaro e ao escritor, numa época em que poucos “trombones” da direita se aventuravam a fazê-lo. Por sua ousadia, despertou a ira dos bolsominions e olavetes e ainda hoje paga um preço alto por isso. Na semana passada, chegou a ser chamado de “comunista” por um “jacobino” indignado com suas críticas ao “professor”.

“Sempre que critico o Olavo e o Bolsonaro sou alvo da patrulha que remete ao petismo mais indigesto”, disse o economista, provavelmente o primeiro a se referir ao escritor como Osho, o guru indiano que liderava o movimento Rajneesh. “Poucas vezes vi um modus operandi tão autoritário, de um grupo que funciona como uma seita e intimida os críticos como se fossem inimigos.”

Entre os integrantes do governo, nem o ministro Sérgio Moro, da Justiça e Segurança Pública, foi poupado dos ataques de Olavo e seus pupilos, por sua posição contrária à flexibilização do porte de arma e pela nomeação e posterior desnomeação da cientista política Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. O caso mais recente de ataques virtuais de Olavo e de olavetes a autoridades do primeiro escalão do governo envolveu o ministro Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, indicado pelo próprio escritor, após a demissão de um grupo de olavetes do órgão. 

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