Críticas e elogios se equilibram em SP

Eleitores das classes AB veem pontos positivos e negativos em Lula e em Serra, expressam desilusão com a política e apreço por Marina

O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2010 | 15h15

Na calçada de um restaurante na Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, oito profissionais liberais e pequenos empresários paulistanos, na faixa de 28 a 46 anos, expuseram, numa noite de sexta-feira, o vasto espectro de modos de pensar que caracteriza a classe média alta de São Paulo. Eles veem pontos positivos e negativos nos governos do presidente Lula e do ex-governador José Serra, e gostam da senadora Marina Silva.

 

"Tenho as mesmas queixas que qualquer empresário tem: burocracia, carga tributária", enumera Rogério Acquadro, 28 anos, sócio de um escritório de consultoria em informática. "Mas, para mim, tem melhorado." Em 2006, Rogério deixou a segurança de um emprego com carteira assinada para abrir seu negócio. Hoje, fatura entre R$ 200 mil e R$ 300 mil por ano, tem três funcionários e oito clientes.

 

"A crise do último ano não aconteceu comigo", testemunha Rogério, formado em física. "Ao menos no meu ramo, com meus clientes, não senti." Segundo ele, "as queixas são as mesmas: o imposto é alto, trabalha-se muito e ganha-se pouco, mas as pessoas não se queixam como se queixavam antes". À pergunta sobre se já pensou em como votará, ele responde: "Já. Continuísmo."

 

"Tem mudanças significativas para pessoas com carência econômica", reconhece Itamar Gonçalves, de 46 anos, coordenador de programas da filial brasileira de uma organização não-governamental internacional, que atua contra o abuso e a exploração sexual de crianças. "O Bolsa-Família é uma necessidade", atesta Itamar. "Isso pode não ser sentido aqui em São Paulo. Mas atuo muito em comunidades carentes de Pernambuco. Lá faz total diferença na vida das pessoas."

 

Mas Itamar critica a falta de políticas para que as pessoas deixem de precisar do benefício. "O Bolsa-Família não pode se perpetuar, e não vejo solução para ele", diz Itamar, formado em geografia com especialização em psicologia. "Eu gostaria de um governo que criasse condições para as pessoas terem dignidade, sem cair nessa linha assistencialista." Itamar está desapontado com o PT: "Eu tinha uma esperança de que pudesse ser diferente. Com as composições feitas (no Congresso), não vejo diferença entre os governos do PSDB e do PT. A política monetária é a mesma."

 

"Eu tinha um sentimento de que fôssemos superar a corrupção", continua Itamar. "O governo Lula foi tal e qual (os anteriores), e isso me abalou muito, causou muita descrença. É um governo muito corrupto." Ele pretende votar em Marina, "em busca de alternativa, mesmo sabendo que ela também teria de fazer composições que não seriam muito diferentes". Itamar diz que sua escolha "não é só uma questão programática, mas também de ter pessoas dignas no governo". Ele acha que Marina não tem chances: "É para mostrar que tem uma insatisfação contida."

 

"As coisas básicas, como segurança, educação e saúde, não melhoram", impacienta-se Camila Aló, de 31 anos. Formada em administração, ela trabalhou durante dez anos em grandes empresas, como Ambev, Nokia e Unilever, da qual saiu há um ano para estudar pedagogia na PUC.

 

"Para quem tem uma condição de vida ruim, que não é o caso aqui da entrevista, melhorou", admite Camila, que vive da poupança que fez quando trabalhava. "O governo Lula tem uma política totalmente voltada para o social, com que às vezes eu não concordo", afirma ela. "O Bolsa-Família é um escândalo. As pessoas burlam as regras. É uma vergonha, uma enganação."

 

"A política é uma mesmice", queixa-se Camila, que vai votar em Marina. "Acho que ela tem ideias que fogem do padrão, mas não temos a consciência coletiva para fazer isso", afirma, prevendo que sua candidata não será eleita. "Gosto da visão social, mas não da Dilma (Rousseff). Não sou contra o Serra, até porque o PSDB também tem essa preocupação social."

 

O publicitário Alexandre Martins, de 42 anos, discorda de Camila quanto à saúde. Ele diz que teve infecção intestinal e foi a um posto de saúde em São Roque, a 60 km de São Paulo, onde possui um sítio, foi bem atendido e ganhou remédios. Alexandre, que trabalha num banco, acredita que a saúde melhorou, e atribui isso aos três níveis de governo.

 

O publicitário conta que demitiu seu caseiro, que tem quatro filhos, e só depois de desempregado ele foi pedir Bolsa-Família. "Em lugares menores, as coisas são mais bem geridas", acha Alexandre. "Lá tem assistente social que passa de casa em casa." Ele votou no senador Cristovam Buarque (PDT) para presidente em 2006. Apesar de seu relativo otimismo, não pretende votar este ano: "Nenhum dos candidatos que estão aí merece meu voto." Numa coisa, Alexandre e Camila concordam: "Lula é populista."

 

O produtor de eventos Paulo Tosetti, 38 anos, também votou em Cristovam no primeiro turno, e em Lula no segundo. "Tenho restrições com relação ao Serra", diz Paulo, formado em história. "Prometeu terminar o mandato como prefeito e foi candidato a governador. Não confio mais nele." Paulo diz que não sabe muito sobre Dilma. "Foi criada porque o PT perdeu seus candidatos na crise do mensalão. Estou esperando a campanha para conhecê-la mais."

 

"Economicamente, o Brasil nunca viveu uma época como esta", reconhece Paulo, que abriu sua empresa há nove anos, depois de trabalhar como pesquisador de história e gerente de bar. "Atribuo a um caminho que vem sendo trilhado, desde Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula. O mérito que dou ao Lula é que nenhum governo pensou tanto no social quanto o dele."

 

No ano passado, seu negócio sofreu uma queda forte com a crise econômica mundial. "As empresas não investiam em eventos por medo, não porque não tinham dinheiro", analisa. "Depois se descobriu que era uma marola." Paulo estima que o impacto sobre o Brasil foi menor por ser mais exportador de matéria-prima, para a qual sempre há demanda, do que de serviços ou tecnologia. "O mérito do governo federal foi saber usar isso."

 

"Para mim, o que mais pesa é o social", diz Paulo. "Aprovo os programas sociais. Podem ser melhorados. Itamar e FHC estabilizaram a economia. Os próximos governos precisam continuar cuidando da estabilidade para poder olhar para o social - saúde, segurança, as condições básicas." Ele acha que Marina se preocupa com isso, mas lhe falta um partido forte. "Quem não tem força do partido para fazer política vai pagar mensalão."

 

Em 2002, Fernando Molina, de 28 anos, votou em Lula porque achava que o Brasil precisava de mudança. Ele aprovara a estabilização da economia e a privatização por Fernando Henrique Cardoso, mas achava que era hora de "dar chance aos que não tinham chances e também pagam imposto". E, de fato, "essas pessoas melhoraram de vida" no governo Lula, diz ele.

 

"Não acredito que seja a melhor solução dar alguma coisa, porque as pessoas tendem a dar menos valor àquilo que elas ganham do que àquilo que elas trabalham para conseguir", pondera Fernando, formado em administração de empresas, com MBA. "Mas não é justo eu falar que o Bolsa-Família é uma proposta errada quando vim de uma família que me proporcionou condição de batalhar pelas coisas que tenho. Quem nunca teve nada ter uma oportunidade de ter alguma coisa é justo."

 

Mesmo assim, Fernando desgostou do governo Lula, por causa de sua aliança com o PMDB de José Sarney. "O PMDB não prega mais nada, só busca permanência nos cargos que tem", critica. "Apesar de eu acreditar que as propostas do PSDB sejam mais certas, Lula tem um grande trunfo, que é o seu carisma, inclusive fora do país", observa. "Votaria no Serra por alinhamento com o PSDB. PT e PSDB fogem dos extremos, caminham no centro", elogia. "O errado é que não procuraram se unir. Preferiram buscar o poder. É muito triste ter de escolher entre um e outro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.