DANIEL FLORES/CNBB
DANIEL FLORES/CNBB

Crítica a papa afeta grupo conservador na CNBB

Ação de bolsonaristas contra Francisco ajuda moderados na eleição do episcopado

Ricardo Galhardo e José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2019 | 05h00

Entre os dias 1.º e 10 de maio mais de 400 representantes da Igreja Católica, entre eles 304 bispos ativos, vão se reunir em Aparecida (SP) na 57.ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para, entre outras tarefas, escolher os novos ocupantes dos cargos mais importantes da entidade: presidente e secretário-geral.

Segundo analistas e religiosos que acompanham as movimentações do episcopado, os atritos de aliados do presidente Jair Bolsonaro com a CNBB e o papa Francisco tendem a enfraquecer os setores mais conservadores da Igreja que ganharam força antes da posse do novo governo. “Um dos maiores problemas hoje do governo em relação à Igreja é a oposição que aliados de Bolsonaro fazem ao papa”, disse o professor Francisco Borba, coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Desde o ano passado, Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e aliado da família Bolsonaro, tem se aproximado dos maiores adversários de Francisco. O escritor Olavo de Carvalho, guru do presidente, é crítico contumaz do pontífice.

O passivo de atritos inclui ainda blogueiros e influenciadores digitais vinculados à rede bolsonarista que questionam a legitimidade de Francisco e promovem uma espécie de “patrulha ideológica” contra a CNBB e generais palacianos que tratam a Igreja com desconfiança em razão do Sínodo Pan-Amazônico, além da presença maciça de evangélicos no Planalto.

“Alguns bispos carregaram dioceses inteiras para apoiar veladamente a eleição de Bolsonaro. Agora, estes setores serão chamados a tomar consciência”, disse o padre José Arnaldo Juliano, assessor do Sínodo Arquidiocesano de São Paulo. O resultado disso tudo deve ser o esvaziamento da onda conservadora que vinha tomando conta da Igreja e a escolha de moderados para os postos de chefia da CNBB. “Vai haver uma tendência de negar polarizações. A Igreja sempre se sai bem quando consegue fazer a ponte entra posições antagônicas”, disse Borba.

Nomes. A 57.ª Assembleia-Geral da CNBB terá de escolher um sucessor para o atual presidente, o cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília. Ele comunicou que não aceita a reeleição. Quatro nomes estão sendo apontados para o cargo: os cardeais d. Odilo Scherer, de São Paulo, d. Orani João Tempesta, do Rio de Janeiro, o arcebispo d. Jaime Spengler, de Porto Alegre, e o arcebispo de Belo Horizonte, d. Walmor Oliveira de Azevedo.

Embora não seja um conservador, d. Orani tinha apoio desse setor e vinha despontando como um dos favoritos, mas perdeu força após o ex-padre Wagner Portugal, um dos homens fortes da Arquidiocese do Rio, confessou ter participado de desvios de verbas da Saúde.

Também será eleito um novo secretário-geral, para substituir d. Leonardo Steiner, que não pode concorrer à reeleição, por ter concluído dois mandatos. Duas indicações surgiram para o cargo: d. Joaquim Mol Guimarães, auxiliar de Belo Horizonte, e d. Esmeraldo Barreto de Farias, auxiliar de São Luís. D. Mol enfrenta o obstáculo para disputar a eleição. Seu arcebispo, d. Walmor, não quer perdê-lo, porque d. Mol é o reitor da PUC-Minas e bom administrador.

D. Esmeraldo, ex-bispo de Paulo Afonso (BA), de Santarém (Pará) e arcebispo de Porto Velho (RO), foi transferido para São Luís em 2015. Projetou-se em 2018, por sua organização e capacidade de diálogo, quando foi chamado a substituir, como secretário-geral provisório, d. Leonardo Steiner, que havia sofrido um enfarte. “Não comento a lembrança de meu nome”, respondeu o bispo, ao ser questionado sobre a eleição na CNBB.

D. Esmeraldo e d. Mol são membros do Conselho Episcopal Pastoral (Consep), órgão executivo ligado à presidência da conferência. A eleição dos novos dirigentes para um mandato de quatro anos será uma das questões mais importantes da assembleia, ao lado do tema central, Diretrizes para a Evangelização.

Assembleia vai discutir Sínodo da Amazônia

Outra questão a ser levantada para discussão na Assembleia-Geral da CNBB será o Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que se reunirá em Roma, em outubro, sob a presidência do papa Francisco. O Brasil e mais oito países que integram a Amazônia participarão do encontro. Os debates vão abranger temas como a formação de um clero adaptado à região.

O sínodo se tornou um assunto espinhoso porque o governo brasileiro manifestou a preocupação de que a Igreja Católica interfira em assuntos de competência do Estado e ameace a soberania nacional. O cardeal d. Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e da Comissão Episcopal para a Amazônia, da CNBB, conversou com comandantes militares da região e afirmou que o problema está superado.

Serão debatidas no Sínodo situações de interesse da Igreja e do Estado, como a população indígena, demarcação de terras, mineração e proteção da floresta, cuja discussão pode gerar atritos. “A Igreja está dentro da sociedade, ela e o Estado trabalham com a mesma população e os mesmos problemas”, afirmou d. Cláudio.

Silêncio. Observador atento das assembleias da CNBB, embora já aposentado, d. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC), disse que nunca viu uma pré-eleição tão silenciosa como a deste ano. “Não há polarizações”, comentou.

Padre Paulo Suess, que já foi missionário na Amazônia, ressalvou que a Igreja não está parada. Ele lembrou, como exemplo, a nota oficial com críticas às propostas do governo de Jair Bolsonaro para a reforma da Previdência apresentada ao Congresso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.