Cristina quer laços fortes com Brasil

Um dos principais temas do encontro com Lula hoje será discutir a integração energética entre os dois países

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2007 | 00h00

A presidente eleita da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, desembarcará hoje em Brasília para um segundo encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 50 dias. Um dos principais pontos da agenda será a integração energética entre Brasil e Argentina. Segundo se informou em Buenos Aires, Cristina quer aumentar os investimentos da Petrobrás na Argentina e pensa fazer uma parceria estratégica com a estatal brasileira.Na capital argentina, a decisão de reunir-se pela segunda vez com Lula em tão breve período está sendo interpretada como a confirmação de que o eixo Buenos Aires-Brasília é consideravelmente mais importante do que o eixo Buenos Aires-Caracas. Segundo o tradicional jornal La Nación, a agenda exterior de Cristina "responde à simples equação de ?primeiro o Brasil, depois o mundo? ". O encontro terá agenda aberta, mas a chancelaria argentina informou que o encontro visa a reforçar a aliança estratégica Brasil-Argentina.A integração energética entre os dois países tem especial interesse para a Argentina, já que uma crise no setor paira sobre o país desde 2004. Entre maio e agosto deste ano, o governo do marido de Cristina, o presidente Néstor Kirchner, teve de reduzir a oferta de gás e energia elétrica à indústria. Em diversas ocasiões, ao longo da campanha eleitoral e desde a sua vitória nas urnas, Cristina citou o Brasil como um modelo a seguir. Ela revelou admiração pela Embraer, empresa que mencionou como modelo de negócios no discurso de lançamento de sua candidatura. Coincidentemente, desde meados do ano especula-se que a empresa brasileira poderia assumir a fábrica aeronáutica da província de Córdoba, atualmente gerenciada pela Lockheed, cujo contrato de concessão, perto de vencer, dificilmente será renovado, segundo se diz aqui.ALIANÇA COM A PETROBRÁSOutra empresa que causa admiração aos Kirchner - mas também irritação - é a Petrobrás. Tanto quanto Néstor, Cristina sonha em ter uma estatal energética do nível da brasileira. No passado, a Argentina teve a YPF, privatizada nos anos 90 e vendida à espanhola Repsol na virada do século. Em 2004, Kirchner criou uma estatal, a Enarsa, que praticamente não saiu do papel. Para ganhar expressão, a Enarsa precisaria associar-se a uma empresa forte. Uma das alternativas pensadas foi aliar-se à venezuelana PDVSA, menina-dos-olhos do presidente Hugo Chávez. A Petrobrás assustava porque poderia cobiçar ativos de empresas de combustíveis que abandonassem o país. Por esse motivo, em meados deste ano houve atritos entre Kirchner e a Petrobrás, supostamente interessada em herdar os ativos da Esso argentina. Esses planos colidiam com as ambições de Kirchner de atrair o espólio da Esso para a Enarsa ou algum grupo privado local. Mas a recente descoberta de novas reservas de petróleo e gás no mar brasileiro despertaram Kirchner para a possibilidade de que as jazidas possam se prolongar até as costas argentinas. Nesse caso, como a Argentina não tem tecnologia para pesquisar e produzir petróleo em águas profundas, uma associação com a Petrobrás seria oportuna. Por causa disso, Cristina deverá sugerir o aumento dos investimentos da Petrobrás na Argentina. Cristina tomará posse no dia 10 de dezembro com elevada popularidade e alta expectativa. Segundo uma pesquisa da consultoria OPSM, 69% dos argentinos acham que o governo dela será "bom" ou "muito bom" e só 9% consideram que será "ruim" ou "muito ruim".

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