Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Cristã e patriota', deputada quer fazer a esquerda 'tremer'

Eleita pelo PSL, Carla Zambelli ganhou fama ao pedir a saída de Dilma e disputa com colegas simpatia de Bolsonaro

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2019 | 15h50

Pode mostrar a cicatriz? Mal termina a pergunta, a deputada federal bolsonarista Carla Zambelli tira o boné, afasta o cabelo ruivo do lado direito da testa, e mostra uma marca ainda visível que se estende pela raiz intrincada do couro cabeludo, cheio de fios grisalhos. 

A pedido, pega dois dedos da mão direita do interlocutor e os desliza, fortemente, rente à testa, para que o tato sinta uma sequência de pequenos calombos. São pinos que fecharam a calota craniana depois da retirada de um tumor benigno. Era 19 de dezembro de 2015. A primeira pergunta que a ativista antipetista conta que fez, ao acordar da anestesia, foi: “A Dilma já caiu?”.

Carla Zambelli Salgado (PSL-SP), 39 anos no próximo julho, foi eleita com 76.306 votos e despesas de R$ 508 mil. É uma das duas mulheres da bancada federal paulista, com dez deputados. A outra é a deputada Joice Hasselman, eleita com mais de um milhão de votos. Já foram amigas do peito – Carlota pra cá, Joicezinha pra lá -, mas vivem, no momento, um rompimento conturbado. O motivo é uma discussão sobre o tamanho da preferência política do presidente Jair Bolsonaro por uma ou por outra. 

Hasselman diz que ele a apoiou preferencialmente na eleição. Zambelli também se sentiu prestigiada – e encasquetou que a amiga queimou o seu filme junto ao presidente com histórias desabonadoras. Quis falar com ele, para desmenti-las. “O presidente não gosta de mulher mimizenta”, aconselhou-a o secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia. A deputada seguiu o conselho. Falou com o presidente sem mimimis. 

Como mostra em seu WhatsApp, o presidente gravou um vídeo de parabéns pra você a João Hélio, 11 anos, filho da deputada com um pai espanhol que não o assumiu, mas com quem mantém relação cordial. No vídeo, ao lado dela, o presidente felicita o também palmeirense João Hélio, deseja que o time seja bi-campeão mundial, e encerra com um “Valeu, garoto!”. 

A mãe gravou o filho respondendo ao presidente. “Olá, Jair”, ele começa. “Estou muito feliz porque o presidente da República sabe quem eu sou, e pelo motivo que o Brasil está nas suas mãos”. Disse mais: “Espero que você libere aí o porte de armas, para que as pessoas possam se defender”.

Precoce, para o bem ou para o mal? É só conferir, no Youtube, os dois “Descomplicando, com João Hélio”. No primeiro, ele apresenta, desenvolto, curiosidades sobre a Torre de Pisa – pesa 15 mil toneladas, sabia?. No segundo, o tema é o espaço. “Ele se encanta com as coisas – e vai fundo”, contou a mãe no domingo, 13, na entrevista em que mostrou a cicatriz. João Hélio foi reconhecido e recebido pelos avós paternos, que conheceu na Espanha. 

O primeiro vídeo, o da torre inclinada, foi para o facebook, e fez sucesso. Um dos que elogiaram o garoto, Fábio de Marco, provocou: “É petista?”. “Não será (rs rs rs)”, respondeu a mãe. “Não será mesmo”, repetiu, na entrevista. A deputada já tem um “petista ou esquerdista” na família: sua irmã mais velha, doutora em Direito, tia e madrinha de João Hélio. Ficaram anos sem falar uma com a outra. Voltaram tipo às boas, recentemente. O acordo é que a política não entre na conversa.

Filha caçula de uma família classe média alta, que quase quebra com o confisco do governo Collor, Carla Zambelli nasceu em Ribeirão Preto. Conta que desde cedo quis ser independente. Trabalhou já com 13, fez dois anos e meio de Arquitetura, aos 19 saiu da casa dos pais. Em 2003, com 23 anos, vendeu o fusca e foi com o namorado brasileiro para a Espanha. “Não sabia a diferença entre a esquerda e a direita”, diz. Aprendeu lá, conta, observando manifestações populares. Também aprendeu a dançar, profissionalmente. “Sou dançarina, até de dança do ventre”, disse.

Voltou em 2006, descobriu-se grávida do espanhol, assumiu-se solteira e tocou a vida com João Hélio e a ajuda da família, como até hoje, igualmente solteira e no momento sem namorado. “O grande erro da sociedade mundial são os filmes da Disney”, disse, algo melancólica, ao contar que ainda não levou uma flechada certeira do cupido. “Não existe felizes para sempre”, completou. 

Zambelli tem 1,72 de altura em 76 quilos que a incomodam. “São sete a mais do que eu gostaria, mas gosto muito de doces”, explicou. Na sobremesa daquele domingo, em uma boa churrascaria nos Jardins, com a família e amigos, escolheu duas porções. Às vezes, em restaurantes a quilo, o prato de doces tem o mesmo peso do de salgados. Também não morre por grifes caras e badaladas, e não é de manicures e pedicures (“tenho chulé”, disse). “Eu mesmo me viro, a não ser em ocasiões especiais”. Tem síndrome de dores crônicas, com crises intermitentes. “Vários médicos estão me ajudando, além da geriatra que me atende”, informou. 

A mãe de João Hélio – “conservadora, cristã e patriota”, como se define no Twitter – optou pela direita e pelo antipetismo radical em 2011, primeiro governo Dilma Rousseff. Convocou manifestações pelas redes sociais, foi uma das fundadoras do movimento Nas Ruas, e notabilizou-se em performances barulhentas fartamente disponíveis na internet. 

Em uma delas, algemou-se, com outros militantes, em uma pilastra do Congresso Nacional, pedindo o impeachment da presidente eleita. Noutra, a manifestação exibiu boneco que criticava o ministro Lewandovski, do Supremo Tribunal Federal. Foi presa por algumas horas, pela polícia legislativa, por chamar o deputado petista Paulo Pimenta de ladrão. E levou um processo do deputado federal Jean Willys, do PSOL, por uma acusação caluniosa no site do Nas Ruas. Foi condenada, fez uma vaquinha virtual que ajudou a pagar a indenização, mas nunca fez autocrítica. “Nem fui eu quem postou a acusação”, limita-se a dizer, ao estilo “a esquerda vai tremer!”, como avisa em um perfil da rede social, e como reitera na entrevista. 

O domingo da sobremesa dobrada também teve tuítes, ferramenta que maneja com frequência. Um deles informava: “Batisti foi preso! Babaca!”. Outro, do dia anterior, mostrava sua foto com o novo comandante do Exército, general Edson Pujol, a quem foi cumprimentar na concorrida cerimônia de posse.

De tudo que a tornou conhecida e a fez ser eleita, o mais importante, segundo sua própria avaliação, “foi o tumor”. Administrou o diagnóstico de risco com estardalhaço, botando na praça a possibilidade de vir a morrer. Em vídeo no site do Nas Ruas despediu-se dos seguidores com ataques aos petistas.

Em livro, mais tarde – “Não foi golpe – Os bastidores da luta nas ruas pelo impeachment de Dilma”, com prefácio do professor Ives Gandra Martins, parcialmente disponível no Gooogle Books -, a ativista, que também se define como monarquista-parlamentarista, conta que escolheu até a trilha sonora para o funeral, Beethoven, e Chopin, “da minha playlist de música clássica”. E que proibiu, aos seus, a presença de duas pessoas no velório. O livro não as identifica. “Uma é a Gleise Hoffman [a presidente do PT]”, disse, no bar. Depois deu um gole na garrafinha de água com gás, pensou um pouco, e acrescentou: “Se é que ela iria...”. A outra vetada, por motivos pessoais, é uma ilustre desconhecida.

Não houve funeral – o tumor era benigno, vale lembrar -, mas houve outra Carla Zambelli, como ela gosta de frisar, espírita formada em 21 livros lidos e relidos de Zíbia Gasparetto, recentemente falecida. É o que cita como leitura que fez a sua cabeça, além de um livro de Olavo de Carvalho, o filósofo autodidata tido como guru do presidente. Esta semana, quando soube que a deputada estava em visita a China, em comitiva do PSL, o filósofo a criticou, e aos demais. Zambelli respondeu: “Não vevo minha eleição ao Olavo”. 

A Carla rediviva, ou reencarnada, atirou-se ainda mais na luta pelo impeachment, mergulhou no bolsonarismo desde os primórdios, e jogou toda a sua energia naquilo que afirma acreditar ser bom para o Brasil. 

Às vésperas da posse na Câmara dos Deputados, Carla Zambelli está atenta aos movimentos iniciais do novo governo. “Já estava esperando alguma confusão na comunicação, o que é natural quando nem todos se conhecem”, disse, lembrando seus tempos de change management na consultoria KPMG, onde trabalhou por alguns anos como gerente de projetos – até trocar o emprego pelo ativismo total. 

No momentoso caso do filho do vice-presidente Hamilton Mourão – premiado com o triplo do que ganhava como funcionário do Banco do Brasil –, a deputada está com ele. ”Até entendo quem critica, mas sou contra a lei do nepotismo”, afirmou, referindo-se a lei que proíbe a contratação de parentes (e que não cabe no caso do vice general). “Ela está baseada em casos da parentes incompetentes – o que não é o caso de muita gente”. Lamentou, exemplificando, que a lei a proíbe de contratar o irmão, “dedicado e incansável colaborador”. 

Confiante no futuro, a deputada faz um alerta: “O que não pode acontecer é as pessoas colocarem seu próprio ego e interesses acima da nação”. Será um recado para Joice Hasselman? “Seremos apenas colegas de bancada”, respondeu. Em “Não foi golpe”, Carla Zambelli elencou alguns princípios que escolheu para viver. Um deles é não gostar de briga. O outro é, entrando em uma, dar uma boiada para não sair. 

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