Crises que não param de assombrar

A confirmação da admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff pelo Senado implica seu afastamento e formação de um governo Temer. O primeiro desafio do governo Temer é conseguir convencer a população e os atores políticos da legitimidade da forma como ele chegou ao poder. A aprovação do impeachment foi resultado de um processo de profunda degradação institucional centrado na Câmara dos Deputados e no seu ex-presidente, afastado na última quinta feira.

Leonardo Avritzer, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

O primeiro problema de Temer será se desvincular de Eduardo Cunha e tentar convencer o País da legitimidade do percurso pelo qual chegou à Presidência, empreendimento ainda mais difícil em função dos eventos desta semana envolvendo a anulação depois revogada da sessão que aprovou o impeachment pelo presidente interino da Câmara. Será a partir do enfrentamento do problema da legitimidade que será determinada a influência de Temer no Congresso, o que irá depender também de acordos com partidos tradicionais da base aliada como PP, PSD e PR que irão cobrar a fatura do impeachment. Este momento inicial irá determinar a possibilidade ou não da estabilização da crise política.

A segunda questão importante é a economia. O mercado financeiro pede, desde 2014, um ajuste estilo sul da Europa. Esse ajuste tem uma característica principal: ele derruba a atividade econômica a cada vez que despesas do Estado são cortadas, gerando a necessidade de uma nova onda de ajustes e fazendo com que a estabilidade demore a ser alcançada. Nessa perspectiva, o preço social do ajuste é dramático.

A tentativa de realizar profundos cortes nos gastos na saúde e na educação e poupar as carreiras de elites do Estado, tal como o Judiciário, pode diminuir ainda mais a legitimidade do ajuste. Um ajuste desse tipo irá associar à crise econômica e política uma forte crise social. A alternativa de Temer é tentar um ajuste a ser pago pelo andar de cima, algo improvável dada a coalizão que advogou o impeachment.

O desafio de curto prazo de Temer coloca-se no mesmo campo dos desafios da presidente Dilma em 2015. Ele consiste em mudar a trajetória da economia e conseguir dissociar a estabilização da economia da profunda instabilidade política existente no País. Temer traz para a equação um elemento positivo, um maior apoio no Congresso. A facilidade com que essa base, a princípio positiva, pode se tornar negativa demonstra a fragilidade do governo que ora se anuncia.

* PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA UFMG

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