Pinacoteca do Estado de São Paulo
Pinacoteca do Estado de São Paulo

Crises econômicas foram estopim ou estiveram nos bastidores da formação da República

Nos 130 anos desde o fim da monarquia, a política brasileira transitou entre diversos períodos de instabilidade, ruptura e reconciliação

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 01h28

Fim do império, República Velha, golpes de Estado, Nova República. Nos 130 anos desde o fim da monarquia, a política brasileira transitou entre diversos períodos de instabilidade, ruptura e reconciliação – tendo as crises econômicas como estopim ou, ao menos, coadjuvantes. 

Na visão de historiadores ouvidos pelo Estado, a trajetória da economia brasileira desde a Proclamação da República, em 15 novembro de 1889, pode ser dividida em três momentos-chave: a aceleração da modernização e urbanização dos primeiros anos; o desenvolvimentismo e a industrialização, a partir dos anos 30; e a tentativa de se construir uma social-democracia à brasileira, registrada na Constituição de 88.

Mesmo a troca da monarquia pela república teve bastidores econômicos importantes: o País até cresceu nos últimos 30 anos de monarquia, só que a  economia do Império – muito apoiada em trabalho escravo, latifúndios e exportação de produtos primários – já dava sinais de esgotamento.

Para Alexandre Saes, professor de história econômica da Universidade de São Paulo (USP), o regime monárquico enfrentava grande pressão para modificar o sistema de trabalho, e a escravidão era um problema que se sobrepunha naquele momento. “Na década de 1880, o número de escravos já vinha caindo, mas parte da elite ainda tinha nesse modelo uma fonte importante de concentração de riqueza.”

Além disso, a partir da segunda metade da década de 1850, o desenvolvimento, impulsionado pela expansão do café, enfrentava o problema da falta de crédito para financiamento. A saída foi impulsionar a atividade bancária privada, mas as oscilações de preços do mercado internacional e políticas econômicas ineficazes resultaram na falência de bancos importantes da época, como a Casa Santos e o Banco Mauá.

Saes ressalta que a política econômica imperial, mais do que conservadora, tentava reproduzir a ideia de buscar capital estrangeiro e construir instituições de organização da economia. “A política monetária favorecia a  exportação e a estabilidade cambial, mas isso também acabou resultando em crises econômicas pela redução da oferta de moeda.”

Na transição de regime, o País conseguiu atrair  mais empresas estrangeiras, que se dedicaram ao transporte público e à iluminação. Companhias, sobretudo da Inglaterra, espalharam de ferrovias a redes de bondes elétricos e postes pelas cidades brasileiras. A república, porém, não teria um início fácil: logo depois do fim da monarquia, veio uma crise econômica que teve origem no encilhamento, a política financeira criada pelo ministro da Fazenda da época, Rui Barbosa.

A ideia do governo era desenvolver o mercado interno e impulsionar a industrialização, a partir da emissão de papel-moeda, ancorada em títulos da dívida pública e facilitação do crédito. Mas no início de 1891 veio uma forte crise, que fez o valor da moeda despencar, provocando alta da inflação e forte especulação financeira.

Os anos seguintes, da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) à década de 20, seriam marcados pela busca da estabilidade na economia e por uma valorização da identidade nacional, só que o Brasil não passaria ileso pelo crash da Bolsa de Nova York, no fim de 1929.

Novo projeto

A partir dos anos 30, se impôs a busca por saídas criativas para responder à Grande Depressão, lembra o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luiz Prado. 

“O País reagiu à crise de maneira original, com industrialização e foco no mercado interno. Foi importante, sobretudo, para o Estado de São Paulo, onde a indústria se consolidou como a principal fornecedora de produtos para o restante do País. Para as outras regiões, foi uma época de reorganização do ambiente econômico.”

Ele avalia que o período foi importante para a construção de um projeto de País e a consolidação de uma identidade nacional, que passava pelo fortalecimento do mercado interno. “O Brasil se forjava como o país do futuro, uma sociedade com características particulares e que precisava criar respostas próprias para emergir.”

Alexandre Saes, da USP, lembra que a intenção era construir um modelo de um Brasil moderno: industrializado, menos desigual e mais próximo dos países centrais. “Esse projeto vai sendo construído entre 1945 e 1964. E, em alguma medida, é recuperado também durante parte da ditadura militar, até a década de 70.

Com a explosão da inflação, nos anos 1980, no fim do regime e na primeira década da redemocratização, há um esgotamento desse projeto econômico, ao mesmo tempo em que a Constituição de 88 transforma em obrigatórios diversos valores social-democratas, como a universalização do sistema de saúde pública.

“Por um lado, o Brasil se readequava à lógica da economia internacional, que começa no governo de Fernando Collor, a partir de 1989, e continua ao longo dos mandatos de Fernando Henrique Cardoso, até 2002, de maior abertura e redução do Estado. Por outro, a Constituição responde a uma grande crítica que era feita ao governo militar: não ter colocado a redução da desigualdade e da pobreza como objetivos centrais”, diz Saer.

Após a recessão de 2015 e 2016, o desafio que se impõe nos 130 anos de república brasileira é a  construção do Brasil do século 21, segundo Prado. “Com  dificuldade, o Brasil deixou de ser um país muito pobre e se tornou a maior economia da América do Sul. Não resolvemos todos os problemas, mas criamos uma sociedade complexa. O discurso da direita radical hoje é de destruição, mas é preciso discutir um novo projeto para o País.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.