''Crise será teste para a democracia no continente''

Marta Lagos: diretora do instituto de pesquisas Latinobarómetro; para estudiosa do sistema democrático na América Latina, ?tormenta? econômica pode gerar mudanças políticas

Entrevista com

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2008 | 00h00

A recessão e o desemprego que se avizinham, previstos por todos os analistas, não ameaçam apenas as pessoas: no caso da América Latina, também o sistema democrático vai enfrentar tempos ingratos. "Depois de demorar tanto tempo para se estabilizar em nossa região, a democracia enfrentará um duro teste com a tormenta que vem por aí, trazida pela crise financeira", prevê a economista chilena Marta Lagos.Responsável, desde 1995, pelas pesquisas do instituto Latinobarómetro, de Santiago do Chile, a economista acaba de divulgar o seu Informe 2008, com uma avaliação atualizada do sistema democrático no continente. Neste ano, sua equipe consultou 20.217 pessoas em 18 países. Uma de suas constatações foi que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o líder mais bem avaliado, superando o rei Juan Carlos, da Espanha. Nesta entrevista ao Estado, ela se mostra otimista. "Os valores democráticos deverão resistir à tempestade", afirma. Mas não se entusiasma com isso. Para ela, embora as formas democráticas estejam evoluindo, "os governos continuam governando só para uma parte da sociedade, e não para a maioria".Os dados de 2008 de sua pesquisa mostram que a democracia "se consolida parcial e lentamente". Isso é produto dos bons ventos da economia?Há hoje uma percepção, em todo o continente, de que a democracia chegou para ficar. As fórmulas autoritárias já enfraquecidas e o gosto pela participação política avança em países como Paraguai e Venezuela. Com todas as suas imperfeições, o sistema democrático segue adiante.Ele está forte para resistir à recessão que vem por aí?Depois de demorar tanto tempo para se estabilizar, ele enfrentará um duro teste de sobrevivência com a tormenta que se avizinha. E o resultado será decisivo para mostrar se a região vive, de fato, uma nova etapa de sua evolução política. As pessoas tendem a avaliar um sistema pelos benefícios que ele traz. Muitos regimes autoritários sobreviveram pelos bons resultados na economia. Sim. A tormenta pode vir bem forte e as pessoas não terem o guarda-chuva adequado. Vai ser uma mudança brusca, como uma passagem súbita do maior verão para um inverno rigoroso. Se não houver uma condução determinada da opinião pública, a coisa pode ficar muito complicada. Mas estou otimista. Creio que a democracia pode sobreviver. Qual o dado da pesquisa que a deixou mais preocupada?Um deles é a percepção de que os governos do continente continuam, todos eles, governando apenas para uma parte da sociedade e não para a maioria. Há outros? Sim. Acho paradoxal o fato de que, ao mesmo tempo, as pessoas preferem a democracia mas são estatistas, achando que cabe ao Estado cuidar de educação, saúde, aposentadorias.A senhora não teme que, ao dizerem que apóiam a democracia, as pessoas consultadas, no Brasil, no Chile ou na Venezuela, estejam dizendo coisas diferentes?Não, de modo algum. Veja o caso da Venezuela, onde 86% dizem apoiar a democracia. Ali há 46% que se dizem satisfeitos com a democracia praticada por Chávez. Outros 40% se dizem insatisfeitos. São dois grupos, e um deles quer uma democracia diferente. Todos preferem a democracia, mas o país está partido em dois. O que pode acontecer de diferente na região após a posse de Barack Obama nos EUA?Espero pouco. Ele vai enfrentar em seu país um quadro muito complexo. Vamos ver muita simpatia, muitas visitas e pouca novidade. Quem é:Marta Lagos Economista chilena, 56 anos, vive em Santiago Formou-se na Universidade de Heidelberg, na AlemanhaFundadora e diretora da Corporación Latinobarómetro, instituto que faz pesquisas políticas desde 1996Edita anualmente um Informe sobre a situação da democracia no continente

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