Crise revela sistema ''bambo'', afirma FHC

Ex-presidente propõe reforma eleitoral e acusa governo Lula de promover ''cupinização'' na máquina pública

Silvia Amorim e Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2009 | 00h00

Com o Senado mergulhado em denúncias, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revelou-se ontem cético em relação ao resgate da credibilidade pela instituição. Em palestra na capital paulista, FHC disse que o modelo de representação no País está "bambo" e que somente uma mudança do sistema eleitoral pode reverter o quadro. Na esfera administrativa, ele acusou o governo do presidente Lula de promover uma "cupinização" do Estado brasileiro."O nosso sistema de representação está bambo. Ele não representa mais nada. Isso é visível, provocando um efeito de desmoralização extraordinário. Como você pode ter democracia se não há respeito ao Congresso? E como pode ter respeito ao Congresso se todo dia a imprensa noticia coisas que não são corretas que se faz no Congresso?", disse. "Se não mudarmos (o sistema eleitoral), vamos ter a repetição de Congressos do mesmo tipo: a relação entre quem vota e quem é votado é muito tênue e, por isso, quem é votado se sente à vontade para não prestar contas."FHC participou da sessão inaugural do Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo, coordenado pelo ex-senador Jorge Bornhausen (DEM). Ele também responsabilizou o Executivo pela crise no Senado. "Por trás do Congresso tem a forma de representação e, até certo ponto, o interesse do Executivo para amarrar o Congresso." Para FHC, Lula contribuiu com essa situação quando "passa a mão na cabeça de quem faz coisa errada".''CUPINIZAÇÃO''Assim como a crise econômica, o tucano considerou a "cupinização do Estado brasileiro" um dos graves problemas criados pelo atual governo a serem resolvidos. "Essa coisa do partidarismo, da corrupção, da substituição de técnicos por militantes é o cupim que vai minando a estrutura pública. Nós estamos assistindo a uma cupinização do Estado brasileiro", disse. FHC fez um trocadilho com o nome da principal vitrine do governo Lula, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - "É Programa de Aceleração da Comunicação. É propaganda porque o investimento não chega a 1% do PIB - e cobrou a oposição". À noite, em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, voltou a citar a cupinização, ao falar sobre o aparelhamento do Estado. "Quando isso se transforma numa prática, no caso agravada porque temos uma forte influência sindical no Brasil, quando se usa a influência para penetrar em órgãos públicos, é uma outra forma de privatização do Estado, é isso que eu chamei de necessidade de descupinizar."Ele também comentou a discussão sobre prévias no PSDB, ao ser questionado pelo senador Eduardo Suplicy, que chegou a disputar no PT a indicação com Lula em 2002. "Sempre leio nos jornais que sou contra prévias. Nunca disse isso. Se não houver desistência de um dos candidatos, tem que haver um mecanismo de seleção."

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