Crise nos EUA pode ajudar governo na sucessão, diz Fipe

O processo eleitoral para a sucessão presidencial de 2002 deverá sofrer uma guinada, a partir dos ataques terroristas contra os EUA, na semana passada. A análise é do professor de Economia e coordenador da Pesquisa de Preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo (USP), Heron do Carmo.Segundo ele, em momentos de crise mundial a população é impelida por um sentimento natural de apoiar e fortalecer o governo. "O povo galvaniza-se em torno da situação em épocas de crises. Com isso, certamente, a oposição perderá terreno na corrida presidencial", avalia.Para Carmo, o que acontece hoje nos EUA, desde que não haja um forte arrefecimento do consumo, poderá trazer recessão para o Brasil no curto prazo, mas o beneficiar no começo de 2002.O Brasil começa a se beneficiar da crise pela desvalorização do dólar frente ao euro. Com a apreciação da moeda da União Européia (UE), a balança comercial deverá começar a apresentar resultados melhores, uma vez que os gastos lá fora serão reduzidos, explica Carmo."Por mais que pareça, a economia brasileira não está mais tão vulnerável ao resto do mundo como se pensa", afirma Carmo. Ele lembra os estragos feitos pela crise do México, em 1995, na economia brasileira e afirma que, se o País tivesse hoje a mesma estrutura que possuía há seis anos, os danos do ataque terrorista aos EUA seriam ainda mais desastrosos. Carmo afirma ainda que, apesar de toda a turbulência provocada pelos acontecimentos nos EUA, crise Argentina, racionamento de energia elétrica e desvalorização do real, a inflação este ano não fugirá muito para longe da meta - ficará pouco acima do teto - e o Produto Interno Bruto (PIB) apresentará um crescimento próximo de 2%."Para o próximo ano, a inflação poderá ficar mais pressionada por causa do dólar, em relação à meta, mas abaixo da taxa de 2001. Mesmo que o IPCA feche o ano que vem em 4,5% (a meta é 3,5%), como prevê o mercado, o PIB terá espaço para crescer em torno de 4%", prevê Carmo.Esses resultados positivos, mesmo com toda essa quantidade de crises que assolou não só o Brasil, mas também o mundo, Carmo diz que será muito difícil a oposição convencer o eleitorado de que o atual governo não apresentaria resultados melhores, se o cenário não tivesse sido tão adverso a partir do segundo trimestre."A economia brasileira hoje é mais sólida. Uma outra leitura que se pode fazer de toda essa crise é a de que, mesmo com toda esta tempestade, não se fala mais no Brasil em criação de pacotes, o que era muito comum antes", diz Carmo.Nem mesmo o fluxo de investimentos no País será tão prejudicado, como se imaginam, tranqüiliza o economista da USP. Ele explica que grande parte do dinheiro que entra no Brasil vem atrelado ao produtor físico - são créditos que vêm junto com as importações em forma de financiamento. "O que poderá sofrer um pouco são os recursos livres, como investimentos em bolsa, por exemplo", projeta o professor de economia da USP.

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