Crise na aliança PSDB-DEM atrapalha projeto para 2010

Além de disputas regionais, legendas agora brigam até no plano nacional

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

23 Maio 2009 | 00h00

Nove entre dez tucanos e democratas que falam sobre a aliança dos dois maiores partidos de oposição comparam a situação de PSDB e DEM a um casamento de muito tempo. O casal enfrenta crises, mas continua unido porque tem um projeto para o futuro - no caso, derrotar o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de 2010. Aos muitos altos e baixos dos últimos meses, somam-se agora dois elementos de risco: as eleições estaduais e a tentativa do PSDB de conquistar a maior fatia possível do PMDB, em fase de tensão extrema com o governo. Em pelo menos 8 dos 27 Estados há dificuldades no relacionamento das duas legendas da oposição. Os líderes do PSDB e do DEM garantem que a maior parte dos problemas será resolvida, com exceção do Rio Grande do Sul, onde o confronto só se agrava, especialmente depois que dois deputados do DEM assinaram o pedido de abertura de uma CPI para investigar a governadora tucana Yeda Crusius. No Distrito Federal, os aliados do único governador do DEM, José Roberto Arruda, acompanham com apreensão os movimentos do PSDB em direção ao ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB. E, na Bahia, a briga histórica de democratas e tucanos está em fase de trégua, mas ainda é cedo para marcar a data do casamento. "No início do ano que vem, tudo estará resolvido nos Estados", promete, conciliador, o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Paraná, Sergipe, Mato Grosso, Goiás e Espírito Santo são outros Estados onde ainda há problemas. O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), não vê contaminação das questões estaduais na aliança nacional. Não perdoa, porém, a atitude dos democratas gaúchos. "Essa situação no Sul é inaceitável. Eles se prestam a ser linha auxiliar do PT e do PSOL. O DEM poderia resolver isso usando a disciplina interna do partido", reage Aníbal. SEQUELAS Há quem acredite em turbulência até em São Paulo. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) não tem a menor disposição em apoiar o tucano Geraldo Alckmin, provável candidato ao governo do Estado. Reflexo da disputa municipal de 2008, quando Alckmin insistiu em disputar a prefeitura com Kassab, que tinha a promessa de apoio do governador José Serra (PSDB). Segundo alguns democratas, Kassab não abandonou de vez a ideia de ser candidato ao governo em 2010 e enfrentar o PSDB. Além das brigas regionais, no Congresso as tensões também são frequentes. Começou com a disputa pela presidência do Senado, em que o PSDB ficou com o petista Tião Viana (AC) e o DEM apoiou o vencedor José Sarney (PMDB-AP). Há dez dias, a constrangedora cena dos senadores tucanos Tasso Jereissati (CE) e Álvaro Dias (PR) brigando na mesa do plenário com Heráclito Fortes (PMDB-PI) foi como essas brigas de casal que vão parar nas colunas de fofoca, de tão escandalosas. Mas, na semana passada, os dois lados tentavam fazer crer que não passou de um mal-entendido. "Aquela quinta-feira é para ser esquecida por todos", amenizou Heráclito. Na mesma semana da briga dos senadores, o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) fez uma visita à reunião do comando do DEM, que é realizada às terças-feiras. Era um momento de conciliação para, finalmente, formalizar a indicação do tucano como líder da minoria no Congresso, cargo criado no ano passado, mas que as picuinhas entre os dois partidos não permitiam chegar a um nome de consenso. BOMBEIROS Como nos relacionamentos afetivos, há detalhes que parecem irrelevantes, mas, diante do acúmulo, ganham proporções de crise se não são discutidos rapidamente. Por isso, não foram poucas as vezes em que os presidentes nacionais dos dois partidos, Sérgio Guerra e o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), tiveram conversas para, no papel de bombeiros, pedir calma aos deputados e senadores dos dois partidos. Em outros momentos, entram em cena os líderes que não têm mandato, como o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso e o ex-senador democrata Jorge Bornhausen. Nenhum dos oposicionistas ouvidos pelo Estado acredita em abalos na aliança nacional de 2010. No caso dos cortejos do PSDB ao PMDB, porém, o DEM está atento. Na quinta-feira, o governador de Minas, Aécio Neves, que disputa com o paulista José Serra a indicação para candidato a presidente pelo PSDB, afagou os dois lados, em visita ao Congresso. Posou com líderes peemedebistas e democratas e disse que tem espaço para todos em um plano "pós-Lula", não anti-Lula. Muito bonito no discurso, mas o DEM não aceita perder a preferência na aliança nacional. "Vamos trazer o que tem de bom no PMDB, mas a preferência é para quem já está trabalhando em conjunto, que somos nós, o DEM, e também o PPS", diz Rodrigo Maia. "Não estamos trabalhando agora para depois abrirmos mão para o PMDB." Embora o partido não reclame de uma chapa exclusiva do PSDB, o presidente do DEM lembra que Aécio negou categoricamente ter acertado com Serra uma chapa tucana puro-sangue, com o paulista na cabeça e o mineiro de vice. "Já que o Aécio deu essa declaração, a chapa é PSDB-DEM", diz Maia.

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