Crise empurra argentinos para Camboriú

O busto do libertador da Argentina, San Martín, foi inaugurado no dia 17 no Balneário Camboriú, um dos principais pontos turísticos de Santa Catarina. A inusitada cerimônia - é como se brasileiros fincassem um busto do alferes Tiradentes em plena Mar del Plata - simboliza a consolidação da presença dos argentinos na cidade. Uma comunidade cujo crescimento está diretamente ligado ao aprofundamento da crise econômica do lado de lá da fronteira.Na corrida para Camboriú, os "gringos" recorrem à Fundação da República Argentina, entidade da comunidade do Balneário. O presidente da fundação, Ernesto Waldemar Dominguez, diz que, antes de a crise econômica ganhar contornos mais dramáticos, no primeiro semestre, a fundação recebia 20 ligações por mês de interessados em deixar o país para se estabelecer no sul do Brasil. Hoje são 50 telefonemas por semana.Os "gringos" começaram a chegar a Camboriú em 1973, mas seis anos depois apenas 15 tinham fixado residência na cidade. Dados da fundação indicam que há hoje 3.700 argentinos na cidade - cuja população, de 90 mil pessoas, sobe para até 600 mil na temporada de verão. Em toda a região, que abrange localidades como Itapema, Porto Belo e Bombinhas, a comunidade do país vizinho chega a 5.700 pessoas.Vivem no Estado entre 7 mil e 8 mil argentinos, de acordo com o consulado do país. Camboriú à parte, a capital, Florianópolis, também é muito procurada.Capital - Dominguez diz que os interessados em se mudar para Camboriú atualmente são adultos de mais de 40 anos e jovens de 25 anos, em média. Eles ligam pedindo orientação sobre como montar negócios, principalmente no setor de serviços. Mas não é fácil vir para o Brasil, diz Dominguez. Com menos de US$ 20 mil para investir, fica inviável, garante.Com essa limitação, pouco menos de 10% das consultas dão resultado prático. "De cada 10 pessoas que vêm, 6 ou 7 são aposentados ou estão prestes a se aposentar." Muitos se desfazem de um patrimônio formado durante anos para, com dólares no bolso, investir no Brasil. Aqui, contam com a vantagem extra de a aposentadoria ser paga em pesos, que, graças aos malabarismos do ministro da Economia, Domingo Cavallo, mantém por enquanto a paridade de 1 para 1 com o dólar.Mesmo assim, em toda Santa Catarina há 400 empresas de argentinos. Os laços que eles estabelecem com os nativos não são apenas sociais. A legislação prevê que, para um argentino abrir negócio no Brasil, tem de se associar a um brasileiro. Um dos motivos pelos quais os locais aprovam a chegada dos "gringos", sem falar nos empregos criados pelos investimentos da comunidade.Imóveis - A "invasão" é ainda mais visível no mercado imobiliário. Os argentinos têm mais de 70 mil imóveis no Estado. Em Camboriú, este ano, a venda de apartamentos para os "gringos" cresceu 50% em comparação com o ano passado, diz a vice-presidente da Associação dos Corretores de Imóveis da cidade, Waleska Mattos Miura.O corretor Marco Aurélio Silva, de uma imobiliária da Avenida Atlântica, afirma que, com o aquecimento do mercado verificado desde março, tem vendido em média dois apartamentos por mês. A procura fez o preço dos imóveis aumentar cerca de 20% de acordo com Silva, ou 25%, na avaliação de Waleska. "A oferta diminuiu, porque não temos mais áreas para construção", explica Waleska."Coraje" - Trocar a Argentina pelo Brasil, no entanto, não é uma decisão tão simples. "Hay que tener coraje", diz o empresário Juan Carlos Cortez, de 48 anos, radicado em Camboriú desde maio. Além de dinheiro, a decisão exige desprendimento para deixar para trás parentes e amigos.Cortez e a mulher, Maria Paula Farina, de 34 anos, mudaram-se em maio para o Balneário Camboriú, onde abriram uma confecção. Maria Paula tinha sido demitida de uma agência de turismo de Buenos Aires. Dedicada, fazia cursos de atualização sempre que podia. A demissão foi um choque, tanto que ela lembra exatamente do momento em que recebeu a notícia: às 17h30 de 31 de janeiro.A demissão veio num momento especialmente ruim. Depois de sofrer prejuízos de US$ 40 mil a US$ 50 mil, Cortez fechara uma confecção seis meses antes e encontrava dificuldades para reiniciar um negócio. O casal então juntou suas economias, de US$ 30 mil, e fez as malas rumo a Camboriú.Cortez deixou três filhas na Argentina e mata a saudade por telefone ou via Internet. Maria Paula parece mais entusiasmada. Em Camboriú, a empresária pretende voltar a dançar e pintar, atividades que teve de deixar de lado em Buenos Aires. "Na Argentina eu trabalhava muito e não sobrava tempo para desfrutar. Aqui, já posso pensar em lazer. Do apartamento até a loja, caminho pela praia, com o sol, o mar."

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