ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA
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Levitsky: ‘Crise econômica e corrupção contribuem para insatisfação com a democracia’

Professor de Harvard cita caso brasileiro ao analisar desalento da população com a democracia: ‘Tempestade perfeita’

Entrevista com

Steven Levitsky, professor de Ciência Política da Universidade Harvard (EUA)

Paulo Beraldo e Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 05h00

Para o cientista político e professor de Harvard (EUA) Steven Levitsky, um dos autores de Como as Democracias Morrem, a combinação de crise econômica e escândalos de corrupção explica, em parte, a descrença em regimes democráticos. “O Brasil é muito fácil de explicar. O País vivenciou a tempestade perfeita nos últimos cinco anos”, disse ele ao Estado.

Levitsky falou ainda sobre o surgimento de líderes autoritários e como é possível consertar o problema, já que o descontentamento com o funcionamento da democracia e o crescimento do radicalismo político se tornaram fenômenos globais, conforme apontaram pesquisas divulgadas no mês passado pelo Pew Research Center e pelo Instituto Ipsos.

Uma pesquisa do Pew Research Center feita com mais de 30 mil pessoas de 27 países entre maio e agosto de 2018 mostra que 51% dos entrevistados se dizem insatisfeitos com o funcionamento da democracia em seu país. No Brasil, a taxa é de 83%. O que explica esses números?

São muitos motivos. O principal é que há um sério declínio na satisfação com a democracia quando ela não está indo bem. E um dos principais fatores que influenciam essa percepção é a economia. Na América Latina, sempre que um país entra em crise econômica, como a Argentina no início dos anos 2000 ou o Brasil depois de 2014, quase sempre a satisfação com a democracia cai. O outro grande fator é a corrupção. Quando há percepção de que, governo após governo, a classe política é corrupta, isso contribui para a baixa satisfação com a democracia. Então, as pessoas acreditam que os governos que estão elegendo não são responsáveis por elas como deveriam, que estão roubando dinheiro público, e isso tudo reduz a satisfação. O Brasil é muito fácil de explicar. O País vivenciou a tempestade perfeita nos últimos cinco anos: uma crise econômica terrível combinada com escândalos massivos de corrupção e altos níveis de violência e criminalidade.

Outra pesquisa, realizada pelo Ipsos, identificou que a polarização no Brasil atingiu nível de intolerância superior à média internacional de 27 países. Segundo o instituto, 32% acreditam que não vale a pena conversar com pessoas de diferentes visões políticas. Como isso pode afetar a democracia brasileira?

A democracia requer que as pessoas com diferentes crenças e visões políticas possam conviver e dialogar em outras esferas da vida, apesar das diferenças. Quando os níveis de polarização são muito altos, a democracia está em perigo. Sempre que olhamos para um político rival e não o vemos como alguém para discordar, mas como um inimigo, uma ameaça para a nação, um criminoso, quando deixamos de tolerá-lo, começamos a contemplar a possibilidade de ações extraordinárias. Quanto mais polarizado um lado é, mais propensos estamos a tolerar ou aceitar abusos contra ele. Mais dispostos estamos a aceitar que o líder do outro partido seja preso, exilado, ou que um jornal de oposição seja fechado. Esse nível de polarização está muito evidente no Brasil e nos Estados Unidos, e é o prenúncio de uma crise democrática.

O presidente Jair Bolsonaro pode ser considerado populista?

Bolsonaro tem algumas características, mas não o considero totalmente populista. Ele não chegou ao poder prometendo enterrar as antigas elites. A característica central de um populista é lutar contra o establishment, é a mobilização dos que se sentem marginalizados contra as elites estabelecidas. Mas Bolsonaro foi abraçado por boa parte da elite. Os alvos de seus ataques são a esquerda. No segundo turno, não foi um apelo populista, foi um apelo contra a esquerda.

Como analisa os primeiros meses do governo Bolsonaro?

Considero o governo muito previsível, assim como nos Estados Unidos. As instituições democráticas brasileiras se beneficiaram do fato de que Bolsonaro não é muito popular. Um líder popular autoritário como Alberto Fujimori (Peru), Rafael Correa (Equador) ou Hugo Chávez (Venezuela), que tem de 70% a 80% de aprovação, é muito mais perigoso que um presidente que tem 35% a 40%. Mas é sempre um risco ter na Presidência da República alguém que não é totalmente comprometido com os valores democráticos. É um perigo que os EUA e o Brasil enfrentam hoje.

O surgimento de líderes autocráticos está relacionado ao enfraquecimento dos partidos? O que pode ser feito para mudar essa situação?

O enfraquecimento dos partidos políticos fez com que se tornasse possível que líderes autoritários chegassem ao poder. Os partidos estão se enfraquecendo ao redor do mundo. São instituições do século 19, e vivemos hoje em um mundo muito diferente. As instituições políticas não estão totalmente adaptadas a isso.

O que poderia ser feito para que as pessoas acreditassem novamente que a democracia é o melhor sistema político?

Existem dois elementos. Um deles é a própria ausência da democracia. A perda da democracia, como ocorreu na Argentina e no Chile, faz com que eles a apreciem mais hoje. O outro aspecto é que os governos democráticos precisam funcionar bem. Um caminho para sustentar a satisfação com a democracia é que os governos democráticos sejam melhores que os autoritários. Um problema que o Peru enfrenta, por exemplo, é que os governos autoritários parecem ter sido, na visão de parte da população, melhores que os democráticos.

Como a oposição deve mostrar que tem opções melhores contra os líderes autocráticos?

Não existe uma receita só. A situação do Brasil é muito única porque há um grande partido muito forte, o PT. Esse partido governou de maneira razoável por uma década, e depois falhou dramaticamente. Então, ele é tóxico para muita gente, mas ainda assim continua como o partido mais forte do País. E não dá para ter uma oposição unida com o PT. E também é muito difícil existir uma oposição organizada e unida sem o PT. No final das contas, as pessoas ficam cansadas com o establishment, com os partidos políticos, com o PT, votam no Bolsonaro, mas depois também há desapontamento e as pessoas tendem a apoiar alguém da oposição. A chave para prevenir uma guinada autoritária é impedir os autocratas de mudarem as regras do jogo para que as próximas eleições possam ser justas. É importante deixar os canais eleitorais abertos. Então, quando as pessoas cansarem do autoritarismo, podem optar por figuras mais comprometidas com os valores da democracia. Vejo boas chances disso acontecer nos Estados Unidos e no Brasil.

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